Julho 28, 2002
Quem diz por último
“Das coisas que não disse resta uma: já estou indo.” E a porta suave como um estalo na cabeça dela. O fim chega sempre quando o meio do caminho é indigesto. E palavras nada sutis são melhores quando pouco existe do que era para ser. As vontades batendo como lança sem ponta num alvo inerte. Caindo no chão junto com as outras. E Maria tentando reconstruir depois da partida era melancólico. O gato como uma mobília pouco usada foi para a rua com roupas e fotos dele. Voltava sempre. Ficava na porta esperando tudo passar. Maria carregava ele cada vez mais para longe, e demorava cada vez mais dias para o bicho voltar. Mas ali estava de novo. O fantasma de algo que deu errado. Não existia saudade. Era o sentimento de falha, de desperdício, que aparecia em pesadelos nos sonhos dela. Quanto tempo leva para descobrir o que se quer? Mais tempo do que se leva para desistir, ficar cansado, velho, resignado. Maria não estava ainda, tampouco tinha uma resposta. O limbo sem final feliz, temia. Era como se a porta fechando tivesse aberto outras portas para outras portas para outras num labirinto. Era como se a vida perguntasse para ela: e agora para onde? Não tinha nem pista. Muito tempo parada para começar a se mover. As idéias formigando como pernas dobradas. E o gato insistindo até que entrou na casa. Sem muito alarde, foi ficando. Quietinho para não receber novo castigo. Tão quietinho que ficou triste, tão triste que morreu. Maria colocou o bicho numa sacola e jogou no lixo. Ficou na sacada olhando o caminhão chegar e os homens jogarem todos os sacos para dentro. Com remorso, saiu correndo pela rua até parar o caminhão e ouvir deles que todo aquele lixo era triturado assim que caía na boca da máquina. “O gato também, claro”, eles disseram. Ela não chorou, mas teve vontade. Comprou uma máquina de escrever e a seguinte carta para ele: “Das coisas que não disse resta uma: vai tarde.” E voltou para a vida pronta para encontrar o fim antes do meio. Assim, resignada.
Tem quem fume e não trague. Eu como unhas e não engulo. Mas já traguei. Isso não importa realmente, importa? Para o meu pai, talvez, que saiu da cama mais de uma vez para andar de carro atrás de disco voador. Eu dormia na varanda para ver melhor e ter tosse.
Eu como minhas unhas e as tuas.
Minha família no telefone dá saudade e vontade de apertar.
Gosto dos trancos e barrancos da vida. De ter mau humor e medo e começar tudo de novo. Trocar os pés pelas mãos. Gosto de sentir o mundo movendo e ter que mover junto para não ficar tonta. Quando a lua míngua eu também. A estabilidade não me cansa nem me serve. Não sou avulsa, mas avessa.
Se não escrevo não morro mas não gosto de viver.
Daqui da minha rua não vejo palmeiras sigo viagem e as pessoas falam tantas línguas que sei que estou em Londres. Eu gosto de andar e negros indianos árabes espanhóis ingleses filhos de marroquinos e netos de suburbanos passam por mim sem abanar. Às vezes sorrio mas quase ninguém olha de volta. A lógica da sobrevivência: você finge sempre não perceber que tem alguém do outro lado da rua, aquele alguém finge não te perceber também e quando passa um avião todo mundo olha para cima. O céu nos salva da falsidade e do medo. Literalmente. Mas tem quem entenda errado, daí a proliferação de igrejas.
A nuvem
Ela balançava o bebê cansada. A menina de seis anos não quis comer. O homem levantou e enfiou uma colherada na boca dela, depois outra, e a terceira foi na bochecha, e chutou a cadeira ao mesmo tempo em que empurrava a filha pro quarto. “Sabe quem manda nesta bosta? Eu mando, eu mando!”, berrava. A mulher suspirou baixo e fez que nada, não. Ele sentou de novo e comeu a massa em largas garfadas, olhando para a televisão. Alimentado, foi pro banho sem palavra. Voltou com raiva e a menina pelo braço, olhinhos duas bolitas. “Isso aqui não tem ordem nenhuma! Quem manda aqui? Eu mando! Vai comer.” Ela de novo na mesa, a massa pela garganta sem respirar, começou a vomitar. “Vai ter que comer tudo!” E colocava a massa e o vômito junto na colher, e a menina comia e vomitava e comia de novo o que já tinha comido e vomitado e assim tudo aos berros dele e no silêncio da mulher até que o vizinho bateu na porta. O homem levantou bufando num olhar para a mulher que perguntava “quem é numa hora dessas?”. Abriu a porta e num susto fechou de novo. “Posso saber o que esse filho da puta está fazendo aqui, sua puta? Te falei para não falar com o vizinho. Te falei para não abrir esta tua boca suja. Te falei que te mato, não te falei?” Ela dois passos para trás, ele cinco para a frente e um tapa, dois tapas, ela no chão, o bebê no chão, um chute, a outra ainda vomitando, dois chutes, o vizinho batendo na porta, a cena se estendendo, o barulho aumentando, a polícia batendo na porta, o silêncio da mulher agora gritando pára, a polícia arrombando a porta e o homem sendo levado. Suspirou baixo de novo, e com os dois filhos saiu pela porta sem malas. Voltou cinco horas depois com o marido e a mesma falta do que falar. O dia seguinte amanheceu de novo sem sol nos olhos dela.
Julho 27, 2002
Eu não tenho paciência para o tempo chegar, para o dia morrer, para o despertador tocar, o cabelo crescer, o trabalho acabar, a reunião começar, a resposta vir, a carta ser entregue, as fotos reveladas, as coisas acabadas, o filho nascer. Fiquei dois meses sem uma bota, o salto quebrou. Levei para arrumar levava cinco dias e fui embora, bota inútil embaixo do braço. O Pablo perguntou: deixou para arrumar? Eu não, levava cinco dias... Ele disse o que eu já sei e agora vc também: que falta de paciência, dois meses sem a bota e agora cinco dias muito. Sim, muito... Às vezes uma hora muito, muitas vezes um minuto é demais. Mas o tempo não corre no meu pulso, não uso relógio. O tempo que julgo sempre demais não é universal, é o meu. Tanto, que sete meses nesta terra pouco e os dois minutos que gastei no banheiro antes foram excessivos. Às vezes eu nem faço cocô.
Julho 18, 2002
Às vezes gente também é bicho
O cachorro começou a morar lá e ele não se importou. Um a mais. E quando foi no mercadinho comprou muita massa e frango. Tinha perdido a conta de quantos eram agora, e quando o Pedro chegou em casa tentaram fazer o censo. Eram sete, depois chegou o Vinicius, depois o gato com os filhotes, dois filhotes, e agora este... São três, quatro, cinco mais sete, são doze, treze comigo. O Pedro resmungou: só seis são gente, o resto é bicho. Mas ele não percebia a diferença. Achava tudo igual, afora alterações de forma e cor que os diferenciavam todos entre todos, inclusive ele de Pedro. Cozinhava e dividia a comida, cada vez mais comida na panela e menos nos pratos. E a caixinha esvaziava, esvaziava. No dia que esvaziou, Pedro viu que não tinha diferença mesmo: dos doze sobrou ele, que estava de saída.
Julho 17, 2002
Não me fale do que eu já sei. Você está indo, eu voltando. Já passei por isso tudo antes. Sem cicatrizes. O tempo trabalha a meu favor. Me reconstruo quantas vezes for necessário. E fico melhor. Se tens escolha, eu também. Mas sou sempre escolhido, fisgado. Recebo os fatos como um presente. E como de um presente, enjôo. Um fim não se conversa, se vive. Até matar o outro. E então outros virão. Um ciclo de banalidades, o amor. Indispensável até que se prove o contrário. Me provaste. Sei o que vais dizer e por isso não quero ouvir. Teu silêncio é mais do que preciso de ti. Já gastamos muito tempo juntos. Se foi bom, nem lembro. Faz parte do terreno do que era. Não volto para o passado. Me alimento do café de amanhã. Não sentas mais na minha mesa. Nem cabes entre meus braços. Sou espaçoso demais sozinho, que dirá mal acompanhado. Não é barulho o que quero, apenas pontuar a história. Um ponto final, seco, simples. Aqui não cabem interrogações ou exclamações. Pessoas encontram-se e desencontram-se, o segundo caso sendo mais comum que o primeiro e também o nosso. As coisas grandes às vezes ficam pequenas, e vice-versa. Ao invés da bonança, fico com a tempestade. A minha, que da tua cansei. E se pensas que podes mudar de idéia, que se os dias te trouxerem saudades podes bater em minha porta, que estarei disponível, que meu amor ainda existe na superfície, estás certa.
Para mim nunca foi fácil sorrir assim como minha mãe sorri. Por nada, brilhante tanto que ilumina o opaco sorriso de outros, inclusive o meu, que sorrio, mas não assim. O meu dói um pouco, sai assim devagarinho, contagia nada, bate no céu da boca e volta para dentro como se nem saído. Não tenho vida difícil. Também não fácil, mas dificuldade aqui não é questão. No vídeo do Oiticica que vi na Whitechapel, neguinho sem dentes dançando na favela sorria muito. Eu pouco mostro os meus inteiros. Tinha o efeito vídeo, bem sei. Mas penso que ele sorri assim mesmo, quando bem vontade tem. Eu pouca vontade tenho. E quando tenho soa assim, blasé, sai assim, quietinho, sorriso gasto de tanto não usar. Estou meio blasé e triste e quietinha e por isso exagero bastante. Quem me conhece pensaria: mas ela ri, porra! Sim, tenho momentos os meus, mas nunca sorrio como minha mãe. Minha irmã herdou o riso fácil, a boca grande para bom uso, a minha pequena para uso moderado. Bem moderado. Acho tantas vezes tão pouca graça que vergonha tenho de olhar a vida assim, do topo como se afogada. Ou talvez tão no topo que afogada. Nuvens são às vezes como a onda do esgoto quando o olhar bate nas pessoas do esgoto. Nenhuma pretensão de olhar melhor, aqui, talvez mais desgosto pelo olhar que não deixa os olhos fecharem quando tudo o que se quer é dormir, ou aquele sorriso de apertar os olhinhos do tio Hermínio. O tio Hermínio sorria apertando olhinhos e balançando barriga, meu pai fala que como meu avô, uma história familiar de saber viver e sorrir, e eu herdeira de pouco. Meu pai sorri até quando quase chora, junta a carinha numa expressão muito do meu pai, os olhinhos ficam para baixo, alagados, e ele sorri. Tenho amigos que choram quando sorriem muito, como a nega Lê. O Pablo sorri aberto, mesmo que de quando em quando. O sorriso mais lindo. Eu choro muito, ou sorrio pouco. E bato portas e pés e rosno como um cão. E chata, muito chata, mesmo assim tem quem goste de mim. Nunca foi fácil sorrir assim como minha mãe, mas meus irmãos se contagiaram, passaram das fases negras todas e hoje sorriem muito, todos os meus quatro lindos imãos machos. O meu amigo Anthony outro dia falou que tem medo de que as suas atitudes sejam todas uma reação. Eu acabei de ter o mesmo medo. Mas para mim, definitivamente, nunca foi fácil sorrir assim como minha mãe.