Agosto 24, 2002


Fui ver o último Almodóvar. Não sei escrever sobre filmes que eu gosto. E gostei muito. Mas aqui a imprensa chamou ele de gênio. Gênios fazem coisas geniais. Almodóvar faz coisas humanas ao extremo.

Eu gosto muito de gente. Principalmente de um tipo: o pior.


Preciso de uma pílula de realidade, falou. O mundo não me parece real, as coisas que acontecem não podem ser. Era para ser tudo outro. A cartilha dizia diferente. Parece que entrei pelo buraco errado. A sensação de coisas tortas. Sinto que caí num caldeirão de non sense. Ele entendeu, ela era a pílula de realidade dele.


A reportagem personifica ou personaliza as estatísticas?


Perguntou: quem é o mocinho ali? Quando muda de Hollywood pra Bollywood ninguém sabe a resposta. Votei no de camisa vermelha, o outro parece até americano...


Hoje li tanta coisa em jornal/revista/net que fiquei enjoada. O McDonalds lançou o McAfrica na Noruega, de verdade. É salada e hamburguer num pão pitta. Custa uns 2 dólares. Com dois dólares você compra um africano. Mas quem quer comprar um africano? Bem mais perto: na Argentina 1 em cada 5 passa fome se não receber ajuda de alimentos.

Eu vou aprender a nadar no mundo de tanto que choram.

Então fui no Jorge e lembrei que romantismo é bom.

(isso é Vinicius de Moraes)
Vamos brincar, amor? vamos jogar peteca
Vamos atrapalhar os outros, amor, vamos sair correndo
Vamos subir no elevador, vamos sofrer calmamente e sem precipitação?
Vamos sofrer, amor? males da lama, perigos
Dores de má fama íntimas como as chagas de Cristo
Vamos, amor? vamos tomar porre de absinto
Vamos tomar porre de coisa bem esquisita, vamos
Fingir que hoje é domingo, vamos ver
O afogado na praia, vamos correr atrás do batalhão?
Vamos, amor, tomar thé na Cavé com madame de Sevignée
Vamos roubar laranja, falar nome, vamos inventar
Vamos criar beijo novo, carinho novo, vamos visitar a N.S. do Parto?
Vamos, amor? vamos nos persuadir imensamente nos acontecimentos
Vamos fazer neném dormir, botar ele no urinol
Vamos, amor?
Porque excessivamente grave é a vida.

e eu sem o pablo não quero não

sou aquela que tenta em vão saber de cor as muitas pintas que fazem teu corpo de ninguém. aquela que só quer ser mulher para ser a tua, mesmo que confundindo tudo e todos, atropelando o tempo no espaço, tomando dias por anos e os anos pela infinitude. aquela que só por birra ou mimo reclama sempre mais amor. eu que não consigo ser à toa, que não tenho riso fácil. e para meu desgosto nem sempre te faço rir, nem sempre os teus olhos brilham, nem sempre o teu caminho é reto. porque o amor não é perfeito. o meu por ti é ligeiro como a vida, como toda a vida.

Agosto 16, 2002


Vou para Kassel dia 27. Colocar o Pablo na mochila e vamos para a Documenta. Booom...


Por alguma razão o meu blog desapareceu. Tenho certeza que a culpa é minha, mas acho que recuperei tudo direitinho.


Matar é humano

Passou o dia vendendo lenha, e um frio de rachar de noite. Acordou com o humor possível e não matou ninguém. Cadeira no sol da tarde fria, esperando esvaziar o caminhão. Não esvaziou. Uma noite mais dormindo sob a lona laranja e o dinheiro para pagar a venda. Uma noite mais dormindo sob a lona e o frio endurecendo os pés. Uma noite mais dormindo e as lareiras em chamas. Uma noite mais e nove árvores a menos. Uma noite e o filho foi dormir na vó. Uma noite mais dormindo sob a lona laranja e o vizinho foi dormir com a esposa. Acordou com o humor possível e não matou ninguém, ainda.


Psicologia

Oito horas da manhã, sábado, e o vizinho resolveu passar aspirador de pó no carro, na frente da janela do quarto dela. Levantou irritada, foi até a janela, psiit, e as duas mãos formando uma espingarda deram um, dois, três tiros. Voltou pra cama se espreguiçando, já não ouvia mais o barulho.

Agosto 15, 2002


Quando você ouve pauladas e uma criança chorando desesperada e mais pauladas e mais choro, você acredita em destino ou liga para a polícia?

Agosto 14, 2002


(é longo e velho, mas gosto. se estiver com pressa - ou comendo - não recomendo)

Se eu depois deles

Até os pássaros comiam lixo naquela cidade. Eu comia o mesmo lixo. Vasculhava os mesmos cantos, brigava pelo mesmo grão, pedaço de fruta, massa. Tinha vantagem: os pássaros tinham medo de gente, eram comida também. Dos outros. Não comeria um bicho daqueles. Depenados, doentes, magros, famintos, mais feios do que eu. Mais do que eu, menos do que muitos. Auto-estima. Vivíamos fora da cidade. Péssimo local para viver. Muros altos e redes separavam um lugar com gente gorda, restaurantes, supermercados, um lugar com sorrisos. Ali ninguém entrava, aqui ninguém sorria. Nada existia. Nem nós. Não tinha sido sempre assim. Agora melhor: uma lei obrigava que os restos fossem passados através dos muros, e tinha bem mais comida. Mesmo assim, insuficiente para nós e os pássaros. De raiva, saí matando um por um. Comecei pelos maiores. Roubavam mais comida, tinham mais fome, eram mais ágeis e portanto mais difíceis. Desenvolvi várias engenhocas, como ratoeiras, mas que ao invés de prender pelo rabo enjaulavam os bichanos. Quando presos, eu abria uma porta que tinha na parte de cima e o bicho olhava, dava uns dois ou três pulinhos para certeza de que estava mesmo aberto, e impulsionava um vôo veloz. Não é sempre que se tem uma chance. Coitados. Uma paulada na cabeça e caíam ali mesmo. Eu pegava os nojentos pelas patinhas enrugadas e dava prum mendigo fétido qualquer comer. Assim passei meses, uns quarenta pássaros por dia acabavam naquelas jaulas e então na barriga de alguém. Nada de Joana D´Arc, por favor. Fazia menos por piedade dos famintos do que pelo tempo que levaria enterrando aquela nojeira. E melhor um bicho sendo assado e mordido do que enterrado com pompas. Pombas. Essas vieram depois. Antes, terminados os pássaros mais redondos, fui em busca dos esquálidos. Esses, fácil. Alguns eu pegava até com as mãos, doentes pelos cantos, aninhados junto à comida que deveria, por lei, me pertencer. Bela lei, essa. O resto vai pro resto, e o resto éramos nós e esses bichos com asas que não sei porquê a esta altura comiam até carne. Já viu pássaro carnívoro? Aqueles eram. Um dia vi muitos pousados sobre uma barriga aberta de um homem, que deveria ter morrido de desgosto ou de fome – o que é a mesma coisa. Parecia a cena na minha casa: um gafanhoto levantava as patinhas para as formigas não encostarem nele. Não fiz nada. Depois ele lá, mil formigas em cima, dos lados. No dia seguinte, a trilha de formigas e o gafanhoto tinham desaparecido. Os pássaros como as formigas, pessoas como formigas, formigas como urubus. Sim, eu tinha uma casa, de madeira, três peças, uma um banheiro. Mas para quê banheiro quando não se tem água? Virou uma sala de invenções, uma sala de rebeliões. Todas minhas, que ninguém se importava mais, naquele lugar. Meus planos. Então os pequenos, e, como disse antes, era fácil. Esses eu também dava para alguém comer, mas só para aquelas pessoas que me causavam tanto nojo quanto eles. Sem força, viviam pelos cantos e recebiam com felicidade aquele pedaço gélido de carne doente. Não pensavam que comendo um negócio daqueles ficariam mais frágeis. Gente que põe fome na frente da auto-estima. Enfim, gente. Foram mais alguns meses, não sei quantos, e aí uns sessenta pássaros por dia. Acabaram-se. Chegou a vez dos pombos. Tinha nojo deles desd´os tempos da comida farta. Sim, tinha comida, foi assim que eu cresci. Agora não existiam mais crianças, não vingavam. Eu me vinguei. Para os pombos eu reservava o filé, comida que conseguia chegando às quatro da manhã perto de uma das passagens entre o mundo e o meu mundo, guardada pelo vigia Cabral, que tinha lá seus favores comigo e com as pessoas do lado de lá também. Eu bonita. Amassada, esquálida, mas bonita. Com pão, arroz e salsichas, seguia até a quadra redonda e montava um altar. As bichas vinham, felizes. Eu estátua, até juntar umas cinquenta. Uma rede de pesca pegava primeiro metade, depois a outra, e então outras metades até acabar a salsicha. Uma delas comi, só uma. Gorda, era a chefe. Por dias observei, mandando os outros buscar comida e trazer na boca. Bicando quem se metesse com o que era dela. Já viu pomba ganhar comida na boca? Eu não ganhava, e era gente. Meio verde-rosa, não acreditou na rede até que foi comida. Claro que não acabei com todas elas, nem com todos os outros, mas agora ver pássaros era curioso naquela não-cidade. Se tivesse um biólogo ali, se assustaria. Mas não tinha, nem ninguém preocupado com meio-ambiente. Eu só sei o que é isso porque nasci no meio do caminho entre o que era, o que poderia ser e o que não seria. Encruzilhada. Agora não tinha meio, só extremos. E as pombas já não eram minha obsessão, mas o muro. Fiz a volta na cidade: janelas, passagens, risadas. Mas nenhuma brecha para mim. Eu só queria olhar, mas nem meus contatos com os vigias ajudaram. Comi, durante uma semana só comi. Panqueca! Feijão! Milho! Prá alguma coisa o Cabral servia. E eu servia a ele. Me servia. Num mundo sem amor, mostrar o peitinho pode ser muito. Ganhava menos do que dava, mas isso parte da minha vida. Em terra de cego, quem tem um pouco é rainha. Circulei aquela cidade como um homem a uma mulher, pelo menos assim era, agora não sei, porquê homens e mulheres só do lado de dentro. Fora, só gente. Era quem eu via, e quem eu via era feio. As pessoas pelos cantos, relações todas passageiras, ninguém se conhecia porque ninguém olhava nos olhos. Os umbigos eram o mundo pequeno e repulsivo pois sujos, encardidos, um mundo redondo e que só existia em cada pessoa. Alucinações eu tinha as minhas e todos as suas. Fiz um explosivo e explodi um mendigo que lembrava minha mãe, ou meu pai, ou meu irmão – que mendigo não tem idade nem sexo. Gente, só pela metade, que ninguém era inteiro ali. Não senti culpa, íamos todos para lá. Se eu depois deles, melhor. Fiz outro explosivo e minha casa do pó ao pó. Um terceiro e agora eu. Agora eu olhando por cima e achando justa a vida. Pelo menos comigo.


A Fer me ensinou a colocar links e imagens! Então coloquei este desenho do Jorge, dando o coração de presente para ela. Eu tb te dou meu coração. Beijos e venham logo. Saudades de vocês.

Agora vou ter que mudar a cara deste blog, que tá feioooo...


a fernanda me ensinou a colocar figurinhas. então fiz da minha primeira uma homenagem. no desenho do jorge, é ele mesmo, entregando o coração para ela, de presente de aniversário. feliz aniversário atrasado! mil beijoooosssss

Agosto 12, 2002


Mais números.
Segundo estimativas oficiais inglesas, são 100 mil brasileiros vivendo em Londres. O Consulado do Brasil fala em 20 mil. Uma diferença de apenas 80 mil pessoas, nada mal. No recadastramento eleitoral (brasileiros vivendo no exterior podem votar para presidente) apenas 3 mil apareceram.

Agosto 11, 2002


Eu queria saber colocar figurinhas e fotos e links, mas sou burra por enquanto. Vou aprender.


Para ir sem falta agora correndo!

Blog da Fer
Do Jorge
E do Pablo


Assassinato aqui é assunto de família. São 700 por ano no Reino Unido (59 milhões de habitantes, quase 8 milhões só em Londres). Das vítimas, 90 são homens, 80 são crianças e (isso mesmo) 530 são mulheres. Destas, 68% são vítimas do marido ou outro familiar, enquanto 75% das crianças são assassinadas pelos pais e 20% dos homens por alguém com laço sanguíneo.

Nas entrelinhas: considerando que o Pablo não pega no chinelo nem quando encontra uma aranha, eu vou sobreviver a minha estadia londrina.


A lógica da civilização. Ela comprou uma bicicleta roubada por 20 pounds. Gastou mais 50 num cadeado infalível. “Um absurdo! Roubam muita bicicleta aqui em Londres...”

Agosto 08, 2002


Não quero fazer meu nome nem ser alguém na vida. Já passei desta fase: saí do útero. Desde o dia 27 de maio de 1975 tenho um nome - Consuelo Franz Bassanesi - e sou alguém. Tenho muito a acrescentar para este nome e este alguém, mas são coisas que só me dizem respeito, não ao mundo. Portanto, não compactuo com a neurose urbana de número 357. Para todas as outras, podem contar comigo.


Teimosia

Na confusão ficou sem bolsa e sem raiva. Foi embora a pé. Uns 13 quilômetros de pensamentos que vagaram da praia com a vó até o dia em que tinham se conhecido. E parou ali. A impressão de que a vida tinha parado ali. Oito anos e agora lembrança alguma sequer de um sorriso, uma briga, um pio. Mas o que são os anos quando os minutos passam todos lentos em seus segundos, e tudo se arrasta sem tédio porque você se acostumou? Tinha se acostumado a ser feliz e agora não tinha bolsa nem memória. No dia seguinte ele tocou na campainha, fez as malas e levou junto alguns cedês que não eram dele. Nem dela. Quem não lembra não sente falta. O tempo e o silêncio trouxeram a certeza de que ficaria sem a companhia que começou num beijo e terminou numa casa. E agora podia quem sabe começar a gostar de bolero, ou de pagode. Ou podia nunca mais gostar de nada. Foi o que escolheu. Azeda e os dois filhos, um dele e um do de antes, já não gostavam de ficar em casa. O almoço feito sem vontade comido sem vontade e conversado sem vontade. A roupa pingando sem vontade no varal. O trabalho nem sei. Mas conheceu Luiz, casou de novo e fez filho. Quando nasceu ela morreu mais um pouquinho. Todo mundo sem brilho naquela casa. Médico detectou depressão. Em todos eles, nos vizinhos de andar e nos vizinhos de baixo. Na família que morava ao lado, também, e o assunto foi parar em rodas de cientistas. Explicar tristeza contagiosa não parece difícil, mas foi. Ninguém descobriu motivos, fórmulas, antídoto. A morena que se mudou para lá porque era barato também ficou mal. Um dia Clarice resolveu finalmente comprar bolsa nova. Mudou os móveis de lugar e já se sentia bem. Abriu mais a cortina e a chuva jogou uns pingos nela. Nada foi assim instantâneo, mas a cada hora ela melhor. Lembrou que gostava de zoológico. Ainda bem que estava viva, pensou, apesar das tentativas em contrário. Só que tentou de novo, por birra.

Agosto 07, 2002


Você está no mundo. Não no sentido abstrato, mas num mundo específico, com relações específicas com determinadas pessoas, aquelas que você procurou e escolheu, e que se encaixam perfeitamente no seu mundo. A sua casa tem paredes da cor do seu mundo, o telefone toca e do outro lado está alguém plausível e com um assunto plausível ao espaço que te acolhe como única herdeira. Nos teus pés um chão com buracos que você conhece e na janela a paisagem te abana.
E então você não está mais naquele mundo, não naquele mundo específico. Você se arrancou de lá. Quem é você, agora? Quem é do outro lado da linha? Quais os buracos que te engolem? Pelo menos as árvores continuam a abanar. É pelo vento, descobri.

Agosto 04, 2002


Sei o que são gerações. Minhas cunhadas rainhas-de-festa-d’uva menos de cinco. Eu quase milhão.


Fui passear com meu dindo, lagoa azul. Tirei chinelos de tão livre, enfiei pé em rosetas de tão feliz. Espinhos. Muitos. Ele tirou um por um e fui nadar.


Quando tudo é esquecer, um sofá e uma tevê perfeitos. Não tenho tevê, portanto não esqueço mais. Cansa, mas exercita o cérebro e me diverte ficar transbordando. Pssst: não tenho não porque não posso ter, é opção.

Parafraseando a Rose, que parafraseou alguém que Pablo me diz que é Guimarães Rosa: Quem lembra, tem. Eu tenho tanto, que não cabe em carro algum.

Para você que acha que já viu de tudo. Meu pai é um autodenominado empresário anarquista. Pablo falou hoje: quando você não se preocupa com política tem mais tempo para produzir. Meu pai se preocupa, mas parece que tem tempo para tudo: trabalha 12 horas por dia, dirige outras 3, namora minha mãe (eles casaram de novo há dois anos...), tem seis filhos e nem fuma mais. Faz churrasco, e quando eu não comia carne (não como de novo) fazia peixe só para mim, com alcaparras, era maravilhoso. Me buscava na Osvaldo de madrugada e leva os meninos para passear. Só acho que não vai em reunião de colégio, a não ser que seja de primeira importância, mas quem vai? Minha mãe vai. Minha mãe também tem tempo para tudo. Quando eu era pequena ela trabalhava dia inteiro, mas antes nos levava na escola, no intervalo do almoço nos buscava, de tarde a gente ligava para ela, e na tardinha eu e meus irmãos ficávamos esperando o carro dela passar lá embaixo do morro, então a gente subia correndo e ficava na ruazinha fazendo de conta que pedindo carona. Minha mãe parava, a gente subia no carro para andar 20 segundos e ajudar a carregar compras de supermercado. Não tinha danoninho, mas quem fosse com ela aos domingos na padaria (que saudades das padarias!!!) ganhava o que quisesse. Os pais sempre tem mais tempo do que nós.

Preciso de um cachorro.


Minha mãe leu e achou que estou nostálgica. Mãe, eu não estou, eu sou nostálgica, acalmei. Lembro sempre de um presente que ganhei. Era tipo um jogo de guerra entre canhões, com bolinha de chumbo e tudo-mais, maravilhoso, mas no dia de Natal chorei. Devo ter chorado em todos os dias de Natal, porque chorava tanto que mais que agora, mas deste dia lembro que chorei e meu dindo (aquilo que se chama também de padrinho, ou painho, caso do Ciro Gomes), perguntou: “que foi?”, eu disse: presente de menino, porra! Ele ficou triste, eu também, mas depois amei! E nunca refiz o erro, tarde demais, pessoas vêm e vão. Mas eu adoro presente de menino, dindo.

Falando em porra. Na minha casa ninguém fala – ou falava – palavrão. Acho que ouvi minha mãe falar merda faz pouco, e baixinho. Meu pai faz que nada, não, mas não fala. Não na frente das crianças... E eu um dia na mesa, guria muito, não sei dizer quantos, mas bem pequena. Me irritei com alguém, irmão, irmã, tanto faz que sempre esqueço, e gritei: mas que porra!!!!!!! A mesa parou, parecia que todo mundo sabia o significado daquela palavra menos eu, porra!!!!! Depois minha mãe contou. Achei nojento. E, pensando bem, uma palavra nojenta ali era de bom tamanho.

Agosto 01, 2002


Beijei minhas amigas na frente da estação. Velhinho que vende jornal falou que não ganhava beijo há dias. Eu já entrando, voltei. Coloquei minha mão no peito gordinho dele e beijei bem beijado na bochecha repleta de fios brancos. “God bless you”, foi o que ouvi. Bless you, pensei. Fiquei bem feliz e então morri de vergonha e depois me vi ridícula. Mas acho que eu era mais antes disso.


Hoje você é quem manda, falou tá falado, não tem discussão. Disse pra sorrir mais, eu fiz. Mexer pezinho de criança em metrô, mexi. Beijar velhinho na rua, beijei. Reclamar menos das coisas, eu menos. Me divertir mais, eu mais. Gostar e falar que eu gosto, eu sim. Contou que o mundo melhor assim. Ninguém percebeu.

This page is powered by Blogger. Isn't yours?