Janeiro 26, 2003


O ônibus anda devagar, é sábado e é Londres. Olho pela janela e vejo uma pessoa chorando, outra pessoa chorando, alguns respirando com ajuda de aparelhos, outros atirados pelo chão sem calçados e levanto e saio do ônibus no meio do caos. Terrivelmente curiosa. Afinal, estamos todos esperando insistentemente por um ataque terrorista. A cena fica em câmera lenta: as bocas de todos estão pretas de fuligem, eles tossem e choram e a porta de estação de metrô de Chancery Lane está fechada e policiais enrolam fitas amarelas em torno e o barulho de ambulâncias nos cerca e carros de polícia fecham a rua para carros e os policiais gritam e as pessoas falam em celulares e choram e se abraçam e tossem, e tem sangue em alguns. Olho para uma menina semi-calma e pergunto o que houve. Ela descreve: o trem estava lotado, todas as paredes explodiram, achamos que era uma bomba, um ataque terrorista, houve pânico, saímos correndo, tinha fumaça por todos os lados mas parece que foi só um acidente. Ah, bom.

Tinham 800 pessoas no trem e o pobre do motorista, com cara de chinês, tinha notificado que estava com problemas oito estações antes. Como não era um "unatended package", mandaram seguir. As pessoas estavam sem ar num estado de pânico de quem achou alguns segundos antes que entraria para as estatísticas na guerra contra o terror. Mas parece que, por hora, e com exceção de 11 de setembro, as estatísticas continuam pelo lado de lá.

Diz o Guardian que na segunda-feira os inspetores das Nações Unidas vão dar nota B para o Iraque, e ainda vão dizer que Sadam se mostrou extremamente cooperativo nas buscas. Para ter nota A, ainda segundo o jornal, seria preciso mais tempo. Mas parece que eles não vão ter tempo. Agora o Blair está numa encruzilhada. Ao mesmo tempo que quer ser aliado do Bush na guerra contra o terror, precisa de algum indício de terror no Iraque, senão não tem apoio do congresso nem da população.

Janeiro 05, 2003


que vergonha, tanto tempo sem escrever. me perdi no caos, bati e voltei.


Um senhor, juiz aposentado, me perguntou de onde eu era. Ronaldo!, ele replicou. (sorrisinho meu) Entre outras coisas. Isso não é novidade. Quando ele perguntou, pensei não tente me impressionar, não mostre que você conhece o meu país falando o nome de um jogador de futebol qualquer. Mas é inevitável. Na saída ele continuou simpático: adiós. Tanto "conhecimento" tem começo, meio e fim na venda do clichê como o produto nacional tipo exportação mais bem acabado. “Guns, drugs, fashion...” – é assim que estão vendendo Cidade de Deus aqui. Tem cartazes por todos os lados, e funcionou. O filme teve lotação total nos primeiros dias nos cinemas mais e menos cults da cidade. Claro que tem muitas outras formas de se ter acesso à cultura do Brasil em Londres: escolas de capoeira, de futebol e de samba, churrascarias, bandas de pagode e bares com meninas quentes dançando. O governo bem que tenta o contrário. Nas escolas de inglês, cartazes imensos e coloridos exibem o Brasil: dunas maranhenses sem viva alma e um santo barroco descascadinho. Não tem apelo nenhum, eles ficam com Ronaldo.

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