Abril 24, 2003



desamor
Ela não sabia, mas aquela seria a última vez que o veria, se tivesse aberto os olhos. Se soubesse, teria aberto os olhos para dizer já vai tarde.


desamor ii
Arranca de mim a vontade pela boca. Me empurra no labirinto. Dá aos pombos as migalhas que me orientam. Troca o Sul pelo Norte que ainda assim sei onde estou. A minha rua fica sempre no mesmo lugar. Sigo meus instintos. Arranco de ti a vontade pela boca. Sopro teu coração com nostalgia. Te coloco no teu lugar. Acabo contigo pelas beiradas. Tomo café e derrubo gotas no tapete. Saio sem até logo e retorno sem saudações. Demoro mais do que previas. Ou menos. Durmo com os anjos na tua insônia. Sorrio lendo um livro e te olho sem emoção. Se choras não vejo. Corta teus pulsos e não tens minha atenção. Faz comida que eu peço pizza. Quebra o vaso e varre com ele teus cacos para o lixo. Sussurro no teu ouvido que és desnecessário. Acabo contigo pelas beiradas e morro eu.


Minha mãe me perguntou pq não posto. Não posso, pensei. Depois fui clara para mim mesma: pode. Me obriguei. Sentei na frente do computador para escrever qualquer coisa, só escreva, escreva, não importa. E escrevi. Tá aí. É ruim, e se parece que eu termino sem ter como acabar com a história é pq não tinha mesmo.


Para completar, semi-esqueci a senha do blogger. Fazia muito tempo mesmo.


carne é fraca
Aquela galinha tinha deixado a casa toda fedendo e agora olhava aquele pedaço morto e semi cru na carniça que restara da fome imensa daquele povo na noite anterior. A pele posta ao lado e pêlos ainda presos, torrados. Enjoou. Correu para o banheiro e vomitou. Minutos depois fazia a torrada necessária para encarar o dia que começava as 8 da manhã e terminava às 10. Da noite. Cortou pão, queijo e ligou a torradeira sem olhar para o chão sujo, paredes idem, pia lotada. E a galinha. Nem torrou, queijo duro, enfiou num guardanapo e foi. Metrô lotado, pés doídos, e a albanesa ali do lado pedindo esmolas tem as unhas mais bonitas do que as dela. Chegou no restaurante, brigou com a colega, escutou desaforo do gerente e ficou quieta. Por um, dois, três, dezoito segundos e levantou olhos cheios de raiva e lágrimas e tirou avental e subiu escadas pegou bolsa rua sol e ar. Rua sol e ar. Respira, respira. Carro vem rápido, se atira na avenida mas a buzina faz ela correr. Inteira, sentada na calçada, come as unhas sem saber para onde ir.


os remédios!
cadê os remédios? pelamordedeus uma aspirina....


é como uma celebração:
a música no fundo, vc ouve?
pessoas dançando, vê?
falam entre si, vc também?


mas a criança não pára de chorar!
oh, please... Dê-lhe Prozac.


Entrevistei o Zero4, do Mundo Livre S. A., para a matéria de capa da próxima jungleDrums. Diz ele: “Tem um conto de Júlio Cortázar, chamado "A Casa tomada". Tudo vai bem numa determinada família, exceto pelo fato de que invadiram e tomaram o seu quintal. Eles fazem de conta que não estão enxergando, afinal querem ficar longe de encrenca. Aí o terraço é invadido, mas eles continuam sua vidinha "normal", embora restrita aos ambientes internos da casa. De repente eles perdem a sala de estar. Depois a sala de jantar... Só quando lhes resta um único quarto, prestes a também ser invadido e destruído, é que eles começam a pensar que talvez seja o caso de esboçar alguma reação, seja ela qual for.” Ele segue...


O pequeno mundo às vezes imita o grande: tomaram meu quintal e demorei para reagir.


O projeto é simples: prazer na vida e liberdade criativa. Antes, qualquer coisa parecia melhor do que nada. Agora, qualquer nada me parece melhor do que pouca coisa.


As flores não brotaram em maio. Estamos em abril e as flores não vêm mais. Morreram antes de nascer. O tempo anda ao contrário neste lugar. De ré, o calendário passa lento.


Tenho uma paixão total por blogs. Acredito sinceramente que uma rede de contra-informação vai realmente se formar, se é que já não existe. É história oral via web. Deu para acompanhar a guerra sob o ponto de vista de um iraniano, ou um iraquiano, ou um americano. E dá para seguir olhando o mundo sob o olhar dos outros. Se sempre foi assim, a diferença é que agora cortamos o intermediário. Antes os grandes meios tinham que achar relevante e enviar um correspondente ou contratar um repórter local. Agora qualquer guri presta o serviço de dar pelo menos uma versão dos fatos. Falta muito, ainda, principalmente o que sempre faltou na web: credibilidade. E, por enquanto, é mais fácil saber o que a Claudia comeu ontem. Mas, ainda assim, tem seu valor. A história dos indivíduos conta a história de um tempo. E tem o entretenimento. O Pablo falou hoje de manhã: os blogs substituíram a novela. Sim, estamos acompanhando a briga de um casal através deles. Mas tem duplo sentido. Voltando ao assunto revolução, estamos esperando os próximos capítulos.


Sem mexer a boca movo a tua língua. Fala. Não ouço. Falas mais alto. Não ouço. Grita. Anh? Grita de novo. Anh? Grita mais alto. Muito alto. Os vizinhos reclamam, eles eu escuto.


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