Maio 09, 2003
Irene é o melhor nome de personagem. Porque uso sempre Ana?
Londres é a capital das perucas: 90% das negras usam cabelos sobre os cabelos. Ela gostam do que não têm: liso, muito liso. E azul, mechado, amarelo, violeta. Nah, cor de cabelo não. Eu também não gostava, agora estou com negros. As crianças já não me apontam na rua pensando que sou uma boneca gigante. Além das negras, tem um bairro inteiro de mulheres com perucas: judeus ortodoxos usam cachos pendurados ao lado de cada orelha, estes reais, e as mulheres com corte chanel castanho claro falso sobre um (especulo) corte chanel castanho claro verdadeiro que só aparece no banho. O óbvio sobre o óbvio, apenas um simulacro. Estranha esta cidade.
Fui ver um apartamento e o inquilino, com o filho oriental enroscado nas pernas, me disse: foi muito difícil encontrar outro lugar. Eles não aceitam famílias com crianças em Londres, onde esperam que os pequenos morem? Verdade. A primeira coisa que perguntam nas imobiliárias: Cachorros? Crianças? Nesta ordem. Muito estranha esta cidade.
Nada de cachorros, eu tenho um animal de estimação que é uma planta. A filha da Ju e da Caca ficou de herança e se recupera a olhos vistos de um sequestro. Acharam que era da casa, e sendo da casa podiam fazer o que bem quisessem com ela. Levaram a planta para um lugar com uma nuvem preto-roxo permanente pairada no telhado e sem uma fresta de luz. Eu curtia sol no Brasil e nem imaginava os perigos que minha sobrinha-agora-filha vivia. Voltei e foi a primeira de muitas brigas que culminou na nossa expulsão do lar que nunca foi lar. De volta para casa, Matilda passa bem. Já tem o meu tamanho e aproximadamente 90 novas folhas crescem nos galhos pelados. No novo lar que vai ser lar, já escolhi uma janela para ela.
E temos uma outra planta, nascida no Tesco, a Nina Simone. Bebe baldes de água todo dia e os cinco brotos viraram flores imensas vermelhas. É uma planta muito legal: como nós, ela dorme de noite.
Um golpe fácil: apartamento maravilhoso, muito barato, cansaço e pressa nos olhos do casal: traga o dinheiro! Me dê o dinheiro! Mude agora mesmo! Não preciso de referências! Quase nos hipnotizamos.
tudo que dá pra sentir quase que dá pra pensar
tudo que dá pra pensar quase que dá para ouvir
tudo que dá para ouvir quase que dá para ver
tudo que dá para ver quase que dá pra pegar
tudo que dá pra pegar quase que dá para ter
tudo que dá para ter quase que dá para dar
(arnaldo antunes)
Maio 08, 2003
corto recorto monto como bonequinhos de papel teu perfil, o que vestes, como és, e o que falas quando mando falar. não obedeces, fico birrenta mando-te à merda e não resolvo nada. repito a mesma trajetória com tantos. não se fazem meninos como antigamente.
Sorria. Corra e abrace este estranho. Agora este conhecido, é da família. Sorria. Os dentes limpos, sabe bem. Diga aquelas palavras positivas. Isso. Sorria. Seja educado. Não fale palavrões. Não diga todas as verdades. Varre para baixo do tapete o que tem de humano em ti. Acende as luzes, mas foca onde pode iluminar. Colha os louros do ser perfeito. Como é boa a bondade. Mostra só o que funciona. Sorria. Os dentes brancos, a vida fraca. Sorria com dentes arreganhados e pontudos uma risada bagaceira. Às vezes o mal se veste de bem.
Irene sempre, sempre pontual, Irene apagou. No meio da rua, no meio do caos, lugar bagunçado e cheio de esquisitos. O homem morava na rua e viu a cena. Irene saiu do mercado, Irene com sacola na mão, Irene mexeu no cabelo, Irene andou três passos e caiu no chão. O homem correu e carregou Irene e fez respiração rezou chamou ambulância foi pro hospital. Foi nada, não, ela está bem. Engraçado. Durante dois anos todo dia Irene ofereceu maçã e rosas pro santo. As maças sempre iam parar na barriga do homem da rua. O santo de Irene.
Pego um pedaço da tua pele e multiplico por mil. Estendo no varal e te olho secar. Dobro ao meio, mais uma vez, outra e outra. Guardo com os lençóis teu cheiro concentrado.
Pode ser sorte, pode ser azar – é a máxima do meu pai. A história não lembro, mas a lógica é esta: abro minha carteira e deixo cair todas as 252 moedas que estavam dentro. De joelhos, junto uma por uma e levo uns 12 minutos. Saio bufando de tanto azar. E deixo de ser atropelada na esquina cinco minutos antes.
Eu e Pablo fomos semi-expulsos de nossa casa. Uma sorte. Estamos mudando para a rua mais esquisita de toda Londres, um estúdio lindo e clean sem cara nenhuma que vai ficar com a nossa em dois dias. Em uma semana, mudamos. Endividados, fodidos e felizes. Nada mais emocionante do que decisões de vida que te jogam numa encrenca atrás da outra. Não somos racionais.
Meu Santo Expedito das causas justas e urgentes, socorra-me nesta hora de aflição e desespero. Vós que sois um santo guerreiro, vós que sois o santo dos desesperados, vós que sois o santo das causas urgentes, proteja-me, ajuda-me, dai-me força, coragem e serenidade. Atenda ao meu pedido. (fazer o pedido). Ajuda-me a superar essas horas difíceis, proteja-me de todos que possam me prejudicar, proteja minha família, atenda o meu pedido com urgência. Devolva-me a paz e a tranqüilidade, meu Santo Expedito ! Serei grato pelo resto da minha vida e levarei seu nome a todos que têm fé. Muito obrigado.
A rua é toda suja, mas a senhora do número 40 nunca tem lixo na frente de casa. Varre até chegar na divisa, onde começa a casa do vizinho.