Julho 29, 2003

Rest in pieces, Pablo me conta que escreveu o The Sun sob as fotos de Uday e Qusay. Eu ontem quase vomitei com aquelas imagens, foi uma revolta física. Já vi pessoas em estados semelhantes, mais maquiadas como convém a um velório e sem os tiros. A morte não cai bem para ninguém. Que seja ingenuidade.

E agora tropas japonesas vão auxiliar as americanas no Iraque. É o maior movimento militar do país desde a Segunda Guerra. Nos últimos dez anos pequenos números participaram de ações de paz da ONU, mas a última vez que um soldado japonês usou uma arma em combate foi em 1945. O governo, ciente dos riscos que o Iraque representa para os meninos, aumentou a compensação para soldados mortos em combate em cerca de 40%. Um consolo. Os meninos devem ser despachados em outubro – em setembro tem eleições e o primeiro ministro quer se re-eleger primeiro. Os japoneses não são os únicos: Polônia, Bulgária, Hungria, Honduras, República Dominicana, Tailândia, Eslováquia, Filipinas, Mongólia, Espanha, Ucrânia, República Tcheca, Itália, Portugal, Nova Zelândia, Romênia, Lituânia, Dinamarca, Nicarágua e El Salvador vão enviar soldados. Não entendi nada.

Rest in pieces é a pior frase da última semana. A melhor é de Jack, dos White Stripes. Perguntaram se preferia ser enterrado ou cremado: “surprise me”, respondeu.


Julho 26, 2003

O corpo dói me diz que está doente. Ignoro. O corpo dói muito e insiste que está doente. Fico doente. Não sei fazer bombas. Nunca comprei estricnina. A poeira entra e eu respiro. O homem grita mas não quebra meu silêncio. A falta de respostas é pior do que o que não se quer ouvir. A vida precisa de ironia. E rebeldia. O chão não está posto, faltam cadeiras. Mudar é preciso – exato, não necessário. Te contaram os dedos errados. Uma mão cheia precisa mais do que um punhado. E nem tens os grãos ainda.


Aqui as plantas tem nome e tomam banho e crescem e celebramos seus aniversários. Elas aparecem em fotos de família e fazem sombra para os outros.


O homem me olha de sua janela e olho de volta. O homem me olha de novo, eu também. Ele encara ainda, e ali estou. Arrasto a cadeira para ficar confortável e penso que ele não deve ter nada para fazer.


A viúva diz que ele estava muito brabo. Eu não compreendo como um homem muito brabo, na segunda metade dos seus cinquenta anos, com um punhado de informações valiosas na cabeça, se mata. Um homem brabo briga, xinga, se vinga. Um homem brabo destrói reputações. Não me conformo que David Kelly desistiu. Não anda muito difícil dar uma rasteira no primeiro-ministro. Alguém tem que fazer o trabalho sujo, ele não quis, e pode ser que mesmo assim funcione.


Exigir o que tens direito. A lista de possibilidades ao nascer. Podes ser/ter/fazer o que quiseres. Livre arbítrio. O problema é chegar ou decidir o destino? Talvez tenham omitido parte do acordo.


Quantos nãos são necessários para desistir? Quantas portas têm que fechar antes de pular pela janela? Como tornar baixa uma auto-estima? É importante ter o nome da porta de eventos? É possível ficar sem comprar coisas? Dá para dividir a tinta de cabelo para duas aplicações? Móveis que se encontra na rua são bons? O que precisa acontecer para alguém apelar pro Santo? +++++ São necessários muitos nãos para desistir. Se o prédio for térreo apenas uma porta fechada é necessária para sair pela janela. Uma auto-estima fica baixa no primeiro não da primeira pergunta. Quando o nome não está nelas, as listas vip são um absurdo. Dá para passar meses sem comprar coisas. Tinta rende duas aplicações se o cabelo não é muito longo. Alguns móveis que se encontra na rua são perfeitos. Para apelar pro Santo basta ter que apelar pro Santo.


Um bom resumo. A linha reta da rua começa na City e seus edifícios novos de vidro e aço e seus homens engravatados e mulheres em tailers com pastas e documentos. E então Shoreditch e seus bares e lofts e galerias de arte e escritórios de design e os modernos em roupas coloridas e tênis e cabelos assimétricos. Chega no meu bairro, negro, sujo, com pastores e rappers na rua, e mercados ao ar livre, e muitas lojas de um pound. Então vêm os turcos e suas lojas e restaurantes e agências de mini cab e cigarros em todas as mãos e uma ausência absoluta de mulheres. E termina, num recorte sociológico, em Stamford Hill, judeu ortodoxo-ortodoxo, mulheres em saias passando o joelho, empurrando carrinhos de bebê e acompanhas das meninas vestidas idem, e grupos de homens e seus cachos e casacos pretos e chapéus imensos acompanhados de meninos em cachinhos com o mesmo modelo de roupa, exceto pelas bermudas exibindo pernas de quem não tem cinco anos ainda.


Julho 17, 2003

Das pessoas com quem convivi, tem um bando espalhado: Karen em Viena, Fer e Jorge em Barcelona, Claudine em algum lugar da Nova Zelândia, Flávio em Sidney, Gica em São Francisco, Marcelo e Letícia em território norte-americano indefinido, Marcelo e Poliana em Nova Iorque, João e Flávia aqui em Londres. Devo ter esquecido de alguém, mesmo assim o número não é pequeno. E tem os do Pablo: França, Croácia, Espanha, Estados Unidos e Canadá, que eu lembre. O Marcelo, que passou por todos estes lugares numa viagem de um ano, segundo ele em busca de “algo” que não encontrou, concluiu: “o que não está aqui, não está lá. E o que está lá também está aqui”. Se estamos falando da busca eterna por algo que chamam de felicidade, concordo. Para alguns, não está lá, nem aqui, mas sempre depois. Para outros, está sempre aqui e agora. Estou tentando virar casaca.


Amanhã eu vou ver o Banksy: graffiti, stencil, slogans and live animals, é como ele descreve a exposição. Os stencils dele são fantásticos, já vi vários nas ruas, nunca em galeria. Mas quero falar de slogans: “This revolution is for display purposes only”, ou “You are not safe in 1st class”. Aqui graffiti é política muito seguidamente. O resultado: muros com arte de primeira e idéias, não aquela competição de nomes escritos num shape arredondado, uma falta de senso estético, de tipografia e de oportunidade. Escrever no muro é melhor do que escrever em jornal.


Eu é que sou a fã. Amigos que me lêem e que devem ser lidos. Jorge, Fer e Karen.


Julho 12, 2003

Meu pés balançam de medo do escuro. Espantam mosquitos que não vêm.


Santo Expedito, o mais usado. Velas e velas nos pés do Santo que se depender de mim não dorme. Se ele ainda me ouve é pq apenas parte das velas são para mim. Acendo para várias pessoas e causas. Se acredito, nem sei. Na dúvida, não ultrapasse. E gosto da luz de velas. A vela que queimou ontem era para a Rose e sua tese de doutorado. Deu 9.7 e desconfio que o mérito é todo dela.


A Igreja Anglicana tem padres homossexuais (ok, todas as igrejas tem padres homossexuais, mas a Anglicana admite que os têm). Mesmo assim, a Igreja Anglicana continua homofóbica. É que eles toleram, mas não aceitam. Esquecem, mas não perdoam. Os padres são casados com pessoas do mesmo sexo, mas celibatários. E podem ser padres se ficarem quietinhos, sem chamar a atenção, faz de conta que não vi. Só, por favor, não invente de ser Bispo! Aí já é demais... um bispo gay! Foi tanto barulho que Jeffrey John renunciou a indicação para ser Bispo de Reading, e perdemos a chance de ver nesta década o que deveríamos ter visto na passada.


Tentei não me meter no assunto religião-igreja-sexo, mas não resisti. Pensei que, se os padres pudessem ser gays, as pessoas pensariam que as filhas e filhos delas também podem, e que então minhas amigas poderiam estar mais felizes. Elas e uma multidão de outros que também sofrem.


Julho 11, 2003

Quando tinha uns 13 anos meu pai fez uma aposta: se ficasse um ano sem ver tevê ele pagava US$1000. Eu e minha irmã ficamos, e nas Olimpíadas ele deu um recesso. Depois usei este dinheiro para viajar, aos 19. Não sei se foi por isso – talvez não, minha irmã trabalha em televisão – mas não tenho muito apego pela telinha. Ora me entedia, ora me irrita. Há um ano e meio, sequer assisto. Duas ou três vezes devo ter visto, no Brasil, para prestigiar minha irmã e cunhado. Fora isso, é um utensílio que sumiu da minha vida. Para mim é normal, nem todo mundo gosta das mesmas coisas. Mas logo descobri que pode parecer estranho para os outros. Muito estranho. Você viu aquilo na tevê? Nope, não vejo. E segue aquele silêncio enquanto o cara te imagina cheia de pêlos embaixo do braço morando numa caverna e arrastando o marido pelo cabelos. Um exagero: eu só não sei quem são estas pessoas muito famosas hoje em nomes com letras repetidas.


A BBC está de castigo de novo. Pelo tipo de gente que anda incomodando, é por bom comportamento. Sharon, o pacifista injustiçado, vai receber a imprensa britânica para uma coletiva semana que vem e vetou a BBC. A razão: o trailer do documentário Israel’s Secret Weapons (Armas Secretas de Israel), nada contra o documentário em si. Era assim: imagens de um reator nuclear em Dimona e do Instituto Biológico de Nes Tziona e o narrador perguntava: “Qual país do Oriente Médio não declarou armas nucleares e biológicas em seu poder?” Ninguém nega a existência dos centros, mas o tom do texto, segundo eles, foi ofensivo – compara Israel ao Iraque. Lendo de novo e de novo a frase acima, fica claro: quem faz a comparação não é o texto, mas os fatos. “Existem precedentes internacionais para decisões do tipo”, diz o jornal israelense Maariv. “Eventos desta natureza costumavam acontecer na Albânia and Alemanha Ocidental. Depois, no Irã e no Afeganistão. De novo, Israel está em boa companhia.”


“Estamos acostumados com propaganda anti-Israel nos meios de comunicação. (...) Existe uma insensibilidade em relação ao Estado de Israel, aos judeus e sua história”, disse Danny Seaman, diretor da Assessoria de Imprensa do governo de Israel, ainda sobre o mesmo assunto. Parece que existe insensibilidade também da parte deles em relação à história. O passado não nos ensina nada. Na primeira oportunidade, os oprimidos vão oprimir. O otimismo fugiu hoje. E não, não sou anti-semita, por favor.


Julho 10, 2003

Leio Folha, Estadão, No Mínimo, Carta Capital, Veja, Bravo, Terra, UOL, blogs e não adianta. De longe, vejo o Brasil míope. A melhor informação é aquela que se vive, muito mais sutil do que linhas apuradas por um repórter.


Capelania Católica Brasileira Nossa Senhora Aparecida, Grupo Católico Amigos do Shalom, Grupo Espírita Allan Kardec, Igreja Presbiteriana Renovada, Assembléia de Deus, Igreja Pentecostal Deus é Amor, Igreja do Evagelho Quadrangular, Jovens Adventistas do Sétimo Dia, Comunidade Evangélica Pão da Vida, London Revival Church, Baba Dragún – Sacerdote Maior de La Santeria, Assembléia de Deus Anglo-Brasileira, Assembléia de Deus Ministério Fama, Assembléia de Deus Porta Aberta para a Paz, Assembléia de Deus de Londres, Assembléia de Deus Brasileira em Londres. Para completar, na última semana, o Santo Daime. Não existem fronteiras para a fé: tudo isso está em Londres. God is father.


Sonhei que eu tinha que escrever em cada azeitona uma frase perfeita em si. Sonhei que palavras que continham exatidão de sentido e beleza de som e forma vinham parar em minhas mãos com uma caneta nanquim marcando estes frutos verdes. Eu via as palavras como objetos. Juntas, elas contribuíam mais para o mundo do que na solidão. E minha missão era esta: dar um sentido para o mundo com palavras. Eu conseguia enxergar palavras como um enigma matemático em que o que ela significa, multiplicado pelo barulho que ela produz em nossa boca e dividido pelo desenho final das letras me daria o exato valor delas enquanto palavras. E assim fui seguindo palavras perfeitas de outras mais perfeitas em frases perfeitas tatuadas em azeitonas. Pensei que depois, juntando as azeitonas, teria o livro acabado.


Julho 09, 2003

Sou politicamente correta e torçam o nariz se quiserem. Mas isso não facilita em nada a minha vida. Reuno nos cantos da minha casa os recicláveis, depois tudo em sacolas e caminho três quadras até um centro de reciclagem para enfiar cada um no seu respectivo compartimento. Vidro verde aqui, marrom ali e transparente lá, papel naquele outro, revistas e jornais neste e latas logo ali. Passo pela porta do supermercado e sinto a brisa do ar condicionado mas sigo em frente até a feira ao ar livre onde compro frutas e legumes direto dos pequenos produtores, e sem aquelas embalagens intermináveis em que os supermercados enrolam qualquer laranja. Não jogo lixo no chão, claro. Levanto se uma senhora não tem onde sentar no ônibus. Falo obrigada e desculpa. Não sou racista. Não sou homofóbica. E nenhuma galinha vive seus quatro meses de vida sob luz constante num cubículo com milho e hormônios até o pescoço para me alimentar. Não dá para fingir que não temos, a humanidade, sérios problemas para resolver, entre eles concentração de renda e lixo. Agir de forma politicamente correta em certa medida não é uma escolha, ou não deveria ser. Isso não impede que eu fale alto nem que fale mal nem que acorde os vizinhos nem que beba demais nem que ache certas coisas e modas ridículas. Sou politicamente correta mas não asséptica.


Assepsia é uma perda. Os serviços em Londres podem ser péssimos, e são. Aqui não tem ISO nem aquele padrão de atendimento americano que pegou tão bem no Brasil. Este padrão se espalhou pelas relações humanas até atingir o centro de uma cultura. Não dá para imaginar um show que não seja milimetricamente ensaiado, e a repetição, sempre a repetição. Perdemos com esta assepsia o despojamento. Era um trunfo e eu não sabia. Recebemos do Rafa um dvd chamado Musicalmente (ele comprou nas Americanas, coisa estranha). É um show de Vinícius, Tom, Toquinho e Miúcha na Itália. Tem umas luzes muito bregas, do tipo verde vermelho azul, tudo ao mesmo tempo. Tem um piano com aquele homem fantástico, Tom, sentado atrás. Tem uma mesa com uma toalha de oncinha. Na cadeira está Vinícius. Sobre a mesa, copo, cinzeiro, cigarro e uma garrafa de uísque. Toquinho está no banquinho, com o violão. Miúcha entra e sai, esquisitinha, esquisitinha. A filha de Vinícius faz percussão. E tem uma banda de apoio: bateria, um trompete fabuloso e baixo. Agora não pode fumar, não pode beber, não pode falar bobagem, não pode colocar filha para tocar junto, não pode apresentar o músico negro como azeitona, muito menos dizer que ele é antropófago pois gosta de carne humana, principalmente de mulheres. E a Miúcha veste uma roupa que lhe cobre os joelhos, sem apelo nenhum. Qualquer executivo de gravadora hoje dispensaria esta turma. Os músicos nem suam mais em palco. E a passagem de som deve ser feita no intervalo do cabeleireiro. Haja gel para tantas cabeças.


O assunto que mais importa, na Inglaterra e esta semana, é o duelo BBC e Downing Street. Hoje chegou num momento crucial. Se a BBC garante suas fontes, o governo quer saber que fonte é esta. Mas a fonte deu depoimento em off. Em dois dias todos devem saber quem é. Uma declaração de peso como esta não fica anônima para sempre. Tudo indica que é alguém do Ministério da Defesa.


Subdesenvolvimento humano: o índice de desenvolvimento humano (IDH), calculado pela ONU a partir de indicadores de educação, saúde e renda, retrocedeu na década de 90 em 21 países. Nos 80, foram 4 os países que registraram queda no índice. Em 54 países a renda per capita está mais baixa hoje do que em 1990, sendo 20 deles da África. Em 34 nações a expectativa de vida diminuiu. Em 21 há mais gente passando fome. Em 14 o índice de crianças que morrem antes dos cinco anos aumentou.


29 anos grudadas pelos cérebros, com funções distintas. Tão distintas que podiam ter vontade de ir ao banheiro em momentos diferentes, gostar de músicas diferentes, sentir atração por homens diferentes, ter amigos diferentes. Mas tinham que ir ao banheiro na mesma hora, ouvir as mesmas músicas, olhar para os mesmos homens, e conviver com as mesmas pessoas. Fizeram a mesma faculdade: direito, mas enquanto uma queria seguir na carreira a outra desejava ser jornalista. Entre 50% de chance de viver 100% e 100% de chance de continuar vivendo 50% (ou menos), optaram pela primeira. Se tudo der certo elas nunca vão ficar sabendo que morreram.


Julho 08, 2003

“E agora?” “Veste isso (uma máscara preta de borracha com um zíper do meio do queixo até o início do nariz), senta ali e quando vc quiser abre.” Cinco horas depois a mesma mão arranca a máscara do cara. Ele: “que foi?” “Acabou, ora. Pq vc quis vir aqui se não abriu em nenhum momento?” “É que eu só queria ver...”


Foi capa do Observer a maior barriga dos últimos tempos. Na base de depoimentos em off de fontes da inteligência (o termo me enjoa) americana e inglesa, o jornal afirmava que um comboio havia sido atacado no norte do Iraque e que Saddam e um de seus dois filhos estavam entre os mortos. Testes de DNA iriam comprovar em mais alguns dias o “furo” de reportagem. Foi feio. Mas a imprensa britânica séria costuma ter bem mais altos do que baixos. E logo na semana seguinte a BBC foi protagonista de um destes altos. Fizeram uma série de reportagens que questionavam o dossiê sobre armas de destruição em massa no Iraque. Segundo o repórter Andrew Gilligan, o texto teria sido incrementado pelo governo Blair para ganhar apoio na invasão. No centro das denúncias estava Alastair Campbell, teria partido dele a iniciativa de tornar o documento um pouco mais forte. Ele é o diretor de comunicações do governo e sabe que palavras podem ser recolocadas num efeito lupa. Diante da reportagem, o próprio Alastair enviou diversas cartas para o alto escalão da BBC para pressionar. Queria que a empresa se retratasse, e que Andrew, responsável pelo “ataque”, fosse decapitado. Diante do silêncio que recebeu em troca, num último movimento, Alastair impôs um prazo: a BBC teria até o dia seguinte para tomar uma atitude, senão... O dia seguinte chegou com o mesmo silêncio. Mas dois dias depois Greg Dyke, diretor geral da BBC, envia uma carta para Alastair com cópia para todos os meios de comunicação, bem como para outros membros do governo e alguns MPs. Em 8 páginas, apoiava o repórter, garantia as fontes, acusava Alastair de pressionar e tentar intervir no princípio de liberdade de imprensa. Foi bonito. Na mesma noite, Alastair quebra um comportamento que era sua marca (não se expor, não dar entrevistas, não ser fonte), e vai até ao estúdio do Channel 4. Exaltado, vermelho, suado, e se cuspindo todo, ataca de forma pessoal o correspondente. A história ainda está desdobrando-se. Mas o primeiro round foi da BBC. Soou tão pessoal que foi a vez do Blair sair em defesa do homem, assumindo ele os ataques à BBC.


Isso tudo só foi possível porque a BBC é uma empresa administrada de forma pública-pública. No Brasil, Cultura e TVEs são administradas de forma privada – pelos governos.


Ontem saiu o resultado de um committee que investigava se os dados do dossiê tinham sido maquiados e incrementados. Eles isentam Alastair, mas dizem que fontes duvidosas foram levadas a sério, que dados divulgados pelo governo americano (publicamente interessado em ter aliados na empreitada) foram utilizados sem nenhum tipo de avaliação prévia, que informações de menor importância e outras sem credibilidade apareceram com destaque. O committee também sugere que Blair explique melhor em que evidências baseou seu julgamento. Se cada conto aumenta um ponto, imagina oito – foi este o número de vezes que o dossiê sobre o perigo do Iraque foi reescrito.


O MP Edward Leigh disse que esperava que Blair se desculpasse pelo “dodgy” dossiê e que a principal pergunta ainda não havia sido respondida: onde estão as armas de destruição em massa? Onde estão?


Segundo “ele”, a elite econômica mundial manipula os supostos mercados livres a seu favor, o que a deixa mais rica e torna os pobres mais pobres. Não parece, mas “ele” é o novo economista-chefe do FMI, o indiano Raghuram Rajan.


Maryam Rajavi, líder do braço político do movimento militante Popular Iraniano Mujadideen (MKO, na sigla original), saiu de uma prisão francesa sob fiança. Além de um bando de gente em greve de fome pressionando pela libertação dela, manifestações extremas aconteceram em Paris. Uma delas, passamos por acaso pela frente. Rajavi tem olhos imensos azuis e um sorriso capaz de fazer dúzias de seguidores gritarem palavras de ordem num ritual de auto-imolação que culminou em dois deles transformados em tochas. Policiais corriam com cobertores e eu fiquei tensa e quis olhar o que acontecia, quem eram, qual a causa, e Pablo quis andar mas atravessou a rua comigo e tinha dúzias de policiais e manifestantes gritando coisas que não entendemos e do nosso lado um aglomerado de gente querendo ver o mesmo que eu queria e um policial gritou: “ok, agora movam-se por favor, não tem nada para ver aqui” e então que todo mundo que estava na nossa volta levantou o braço num coro combinado com o de quem estava dentro do cordão de isolamento. Eles também eram do MKO, acusado de formar uma luta armada contra as autoridades de Teerã. Rajavi pagou Є 80 mil, uns R$ 250 mil, de fiança. Uma pechincha. A polícia encontrou Є 8 milhões numa batida na sede do MKO.


Julho 02, 2003

Deve ser que eu rezo baixo


Temos a capacidade de alinhavar palavras em pensamentos. O cérebro funciona. Nem parece. Palavras curtas para idéias bravas. Sobra eloquência na burrice. Tempo demais para momentos ruins. Apenas instantes para a eternidade. Nada se encaixa, tudo funciona.


Agora você não tem mais desculpa. A primeira etapa foi. Move. Te move. Lembre pq vc começou. Lembre pq vc gastou um ano e meio no caos. Lembra que é Londres ali fora e que agora vc pode viver aqui sem se preocupar com coisas pequenas. Busque as grandes. Quais eram, mesmo?


Três laranjas, é o que vc vê. Mas se afastar um pouco e criar um espaço entre elas, coloca uma cor no fundo, o que vc vê? Três laranjas. Eles aqui enxergam uma bunda num biquini fio dental e estão vendendo assim um suco de laranja de caixinha “espremido no Brasil”. Muito importante: as frutas da fotografia são absolutamente lisas, sem aqueles buraquinhos comuns em laranjas e bundas.


Ela era bailarina do Royal Ballet. Testes intermináveis para chegar lá, emprego muito bom num meio difícil mesmo aqui. Bom e de prestígio. Tem que ser brilhante, sempre. A maratona de ensaios-apresentações-exercícios cansa. E o peso. Começou a cheirar cocaína. Depois a tomar ecstasy, o tesão tinha ido embora. E por fim heroína - disposição, fome zero e energia criativa. Tem 22 anos, segue dançando e usando heroína. Faz strip. Parece, mas não é um personagem de ficção.


Como descrever o lugar mais lindo do mundo ou a viagem mais linda ou o homem? Paris foi perfeito.


Agora que não sou mais editora de coisa nenhuma a não ser do meu próprio vocabulário sou colunista semanal de um jornal, que belo. Estou me divertindo, ser cronista é o que mais faltava.


Em Paris vi o que fazia muito tempo não via: gente morando embaixo da ponte, casinhas de papelão tão familiares, com vista para o Siena e Notre Dame. E desenho animado na tevê enquanto Pablo tomava banho e eu me espreguiçava na cama. Ratinhos no que parece um palácio, ratinha de vestido longo, ostensivo, e ratinhos em fraque. Chegam outros ratinhos que parecem serventes: “é a guerra, é a guerra”. E todos os ratinhos correm em círculos gritando: “é a guerra, é a guerra!”. Então fica uma confusão de medo até que a ratinha, cheia de pose, enche a boca para dizer: “que venha a guerra, estou disposta a lutar pela minha liberdade!”. Os ratinhos olham e falam coisas que não entendo e depois numa só voz: “vamos lutar pela nossa liberdade”. Então vem outro ratinho vestido de mensageiro para dizer: “venham se esconder”. E eles: “preferimos morrer do que perder nossa liberdade”.


Lembro de ter isso desde sempre. Pensava que com o tempo ia sumir mas não consigo me livrar da culpa que me enrola e me abraça e tapa meus olhos e suspende minha respiração. Me olho no espelho e digo alto que sou inocente. Mas tenho culpa, sempre. Se não consigo algo que quero, mesmo tendo tentado de todas as formas, sinto culpa. Se estou atrasada devido a um engarrafamento, a culpa é minha. Se não ligo tenho culpa e se ligo tenho culpa também. Se estou longe tenho culpa. Tenho culpa pelas minhas decisões e pelas indecisões. Tenho culpa pelo fracasso e pelas vitórias. Tenho tanta culpa que parece que estou sempre devendo alguma coisa para alguém. E quando entro no supermercado e o segurança fala no rádio a minha culpa faz pensar que é para mim que eles olham. Essa culpa deve ter vindo de longe porque onde quer que eu olhe na minha vida lá estou eu e lá está, na mesma foto, a minha culpa. E hoje me sinto tão culpada que enquanto caminhava olhava para as pessoas tentando identificar se elas também sentem culpa. Pelo jeito que elas caminhavam não tinham culpa nenhuma. O que só aumenta a minha. Diz o Aurélio: Culpa 1. Ação negligente ou imprudente ou danosa a outrem. 2. Falta voluntária contra a moral, preceito religioso ou lei. 3. Responsabilidade por ação ou omissão prejudicial, reprovável ou criminosa. A minha culpa não está no dicionário, habita minha garganta.


A memória deixou a história assim: meu pai chegou em casa com uma caixa imensa para mim e minha irmã e quando abrimos o presente era um Globo. O mundo ali, girando na nossa frente e uma brincadeira de colocar o dedo para fazer parar e então ver que país era aquele. E tinha um Atlas com todas as bandeiras e a brincadeira de adivinhar qual era qual. Depois veio um Globo mais moderno, com luz dentro. E então um mapa do mundo imenso e emoldurado que foi parar na parede do lado da mesa. Ele ficou velho, com Checoslováquia e União Soviética, e foi parar numa parede menos valorizada, do lado da churrasqueira, substituído por um mapa maior ainda, de pelo menos dois metros, que com uma nova técnica foi colado e envernizado diretamente sobre a parede. É como um papel de parede ilustrado com o mundo. Por isso que estou morando aqui, conclui.


Foi então que começou a falar em códigos. O discurso direto sumiu da gramática dele. Tudo virou filosofia.


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