Setembro 21, 2003

Abrir a cortina e então a janela. Respirar como se o primeiro ar da manhã fosse melhor ou mais puro. Ter certeza que é. Apertar no botão da chaleira. Espreguiçar fazendo barulhos que caem bem em gatos mas soam estranhamente pouco humanos. Ligar o computador que inicia lento enquanto a água fica pronta. Despejar na xícara com chá. Derramar leite até ficar cor caramelo, nem mais claro nem mais escuro. Torrada com queijo e mel. Acender velas para o santo e para mim, que já não vivo sem uma vela queimando e aquela luz que nem precisa porque é dia. Acender incenso na chama da vela. Colar papéis e post its com tudo que não pode ser esquecido mas que fica para depois. Ligar o rádio, primeiro ouvir notícias depois música. Conectar. Ler e-mails, jornais e blogs. Arrumar um pouco a mesma bagunça que se faz todo dia. Molhar a planta cuidando para não molhar o anão que mora no vaso. E pensar que se a Matilda continuar crescendo assim daqui a pouco vamos ter que mudar.


Londres é dividida em 32 boroughs, 33 somando a city. Cada um deles funciona como um sub-território político, administrado por um council independente, que é uma prefeitura de assuntos práticos e cotidianos. Assim Ken Livingstone se preocupa com questões econômicas e políticas enquanto a administração da cidade, como limpeza, urbanização, iluminação, fica por conta dos administradores destas áreas menores. Eu vivo em Hackney, no leste, mas já morei em Brent. Brent era um reduto absoluto de reinado Labour. E por isso todos estavam aguardando ansiosos a eleição para o council, que aconteceu há dois dias: serviria como um termômetro de satisfação ou insatisfação das pessoas com o partido e com Blair. Aconteceu o que não podia ter acontecido para o primeiro-ministro: perderam para uma moça do Partido Liberal Democrata, o terceiro em tamanho no Reino Unido. Nem conservadores nem trabalhadores, obrigada, foi o que as urnas disseram. Outro dia, numa entrevista, o repórter perguntava em quem o cidadão tinha votado: achei que fosse no Labour, mas aparentemente me enganei. Esta sensação é generalizada: o que aconteceu com o que era para ser? A pressão no partido pela troca de liderança, uma liderança hoje sem força, sem brilho e sem credibilidade, já existia. Mas Brent deve ser uma gota d´água fervendo. Que seja. O que vem é Gordon Brown, o homem que era amigo e hoje se arrepia quando cruza com Tony. Esta história de desamor foi contada por Stephen Frears num filme que vai ao ar no Channel 4 ainda este ano. Diz a lenda que eles fizeram um trato: Brown seria Chancellor e apoiaria Blair, mas seria “promovido” em seguida. A última parte do acordo, se existiu, não se concretizou. Até aí tudo bem, dramalhões, brigas, conchavos, ninguém duvida mais que isso faça parte da política. O pior de toda esta história é que se o Labour perder força, os dois principais partidos políticos serão Conservadores e Liberais Democratas. Difícil imaginar oposição assim.


Estava num aniversário e podia: caminhar até ali, falar o que eu estava pensando e causar um mal estar. Ser cínica. Ir embora. Fui tarde.


Estou pesquisando sobre doenças mentais, mais especificamente bipolaridade. A doença atinge 1% da população da América do Norte e Europa, e se concentra principalmente nas classes altas. As pessoas com bipolaridade geralmente são aquelas que não vêem sentido na vida, diz um artigo. (E eu que pensei que esta fosse uma busca generalizada.) É uma doença séria, sem cura mas possível de conviver. Tão séria que 15% dos casos comete suicídio, o pior efeito colateral da doença. Virginia Woolf foi uma delas: quando perdeu o domínio sobre o que ia no cérebro, se atirou no Thames. Estava eu contando sobre minhas descobertas e ele me disse: mas se tudo é químico não existe livre arbítrio. Tem fronteiras, partidos, dinheiro, poder, definições, moralismos e, sim, muitos químicos, antes do livre arbítrio.


Ela perguntou: o que você tem? Tá quietinho... É falta de vitamina, respondeu. A graça da resposta não existe. Vitaminas agem como catalisadores, em conjunção com proteínas, para criar enzimas que produzem centenas de reações químicas no organismo. E, exceto pela D, fabricada pelo corpo, todas as outras 12 vitaminas conhecidas tem como origem a dieta adotada. A falta de proteína animal, por exemplo, faz com o organismo absorva menos vitamina B e fique absolutamente em falta de vitamina B12. Tomar vitamina C faz com a absorção aumente, o que é importante. As cápsulas também servem, até porque vitaminas B e C estão no grupo das solúveis em água, ou seja, o que não é aproveitado é eliminado, não existe “overdose”. As Bs são consideradas vitaminas amigas da mente. Por isso a resposta foi uma ironia, mas serve bem. Da próxima vez que alguém me incomodar com a expectativa de um estado de ânimo que não tenho, vou usar vitaminas como álibi. E sabe aquela bobagem: deve estar mal comido? Assim até que faz sentido.


O Guardian reproduziu um extrato do livro Science, Not Art: Ten Scientists’ Diaries. Ali o matemático Marcus du Sautoy, entre outros, divaga sobre a vida. Pelo que entendi, o que ele tem tentado, profissionalmente, é entender simetria. Mais especificamente, entender porque sempre um determinado palíndromo (lavoueuemmeueuoval, segundo Davi Neves, irmão do Nick) aparece no fim do cálculo de função zeta de grupos simétricos. É o tipo de coisa que não é abstrata mas também não dá para dizer que seja concreta. Primeiro temos que entender que um matemático enxerga palíndromos em números, e não estamos falando de 1221. Ele passou os últimos dez anos tentando entender porque isso ocorre. E em setembro passado a pesquisa estava num momento crucial. Fato é que Sautoy apostava, e estava prestes a provar, que existia simetria no caos. Era um dia de descoberta significativa e ele tentava, em vão, ligar para a esposa. O telefone sempre ocupado, liga a televisão e vê a imagem da segunda torre desabando. Foi quando a simetria virou caos.


Setembro 19, 2003

Chris é artista e professor de arte num College londrino. Deve ter quase 40 anos e está terminando um mestrado.
Perguntou: no Brasil vocês não tem filósofos, né?
- Como assim?
- Vocês são um povo mais festivo, não gastam muito tempo pensando...
- Claro que temos filósofos.
- Sim, mas vocês não tem um Nietzsche.
- E nem vocês.
- Digo, tipo um Nietzsche.
- Quando Nietzsche nasceu o Brasil tinha sido descoberto pelo mundo que gerou Nietzsche há uns 300 anos, você entende o absurdo desta pergunta?
Acho que ele ficou com vergonha, porque veio então me impressionar dizendo que tinha conhecido um brasileiro um dia, Paulo alguma coisa, que gostava muito e votava no Lula. Pronunciou direitinho o nome do presidente. Tá bom.


Fui fazer uma pesquisa porque eu lembro de poucos: Marilena Chauí, Gianotti, Carlos Coutinho. Mas o livro História da Filosofia no Brasil, de Jorge Jaime, lista 147 filósofos brasileiros. Outro, Conversa com Filósofos Brasileiros, de Marcos Nobre e José Márcio Rego, cita 16 no que me parece uma visão mais realista. Mas minha pesquisa não andou, não encontrei artigos, teorias, nada. O problema deve ser a minha escassez de fontes para pesquisar sobre o Brasil: se resume a Internet. O Chris não pode estar certo.


Ainda sobre ele. Chris não conhece nenhum artista brasileiro. Tudo bem se ele não fosse alguém que estuda e ensina arte. Antes de vir para Londres eu já tinha visto um punhado de obras e lido sobre outros tantos artistas daqui. Não me refiro nem aos clássicos, contemporâneos mesmo. E não estudo, muito menos ensino, apenas gosto de arte. Recentemente Oiticica, Sebastião Salgado e Niemeyer tiveram trabalhos expostos em galerias inglesas e espaços públicos tradicionais, além de diversos nomes menos badalados que passam pela Galeria 32, anexa à Embaixada Brasileira em Londres. É uma atitude “não vi nem quero ver”.


Michael Moore é um americano quase clássico. Gordo, grande, branquelo, com carteirinha da National Rifle Association no bolso. O quase fica por conta do que ele escreve e faz: filmes e livros criticando o american way of life. Bowling for Columbine, que ganhou o Oscar e permitiu que ele estragasse a intenção da organização de ignorar que o país estava em guerra, é um documentário muito, muito bom, exceto por aquela pieguice de deixar a foto da menina assassinada no jardim da casa do porta voz da associação e ator Charlton Heston. O livro Stupid White Men mostra que Moore tem uma aspereza que não vêm de hoje e muitas balas de festim. Ele conta que o primeiro filme dele, Roger & Me, mostrava uma cena em que uma mulher matava um coelho pois valia mais a pena vender o animal como carne do que como bichinho de estimação. Recebeu dezenas de reclamações e exclamações sobre o quanto horrorizadas ficaram as pessoas com aquela cena, em cartas, telefonemas e abordagens na rua. Dois minutos depois o filme mostrava policiais atirando e matando um negro com uma capa de super homem e um revólver de plástico – e ninguém ligou para reclamar. Diz ele: “Afinal, era apenas um negro. Estamos tão acostumados a ver negros sendo mortos em filmes e no noticiário que aceitamos este como um procedimento padrão”.


Moore também revela que nos Estados Unidos são 44 milhões de analfabetos funcionais. Isso dá 16.5%. Um americano lê em média apenas 99 horas por ano, e passa 1.460 horas na frente da tevê – são menos de 2 horas de leitura e mais de 28 horas assistindo programas por semana. E apenas 11% dos americanos lê jornais diários. Segundo ele, os americanos que conseguem ler e têm um cérebro que funciona mostram que a mente americana está viva e passa bem, mas infelizmente não se ocupa com nada que preste. “Uma nação que se mantém ignorante e estúpida é uma nação que não deveria estar conduzindo o mundo, a não ser que a maioria das pessoas conseguisse localizar Kosovo (ou qualquer outro país que bombardeamos) num mapa.” Ele deve estar na lista dos mais procurados dos Estados Unidos.


O que não chega a ser um consolo. No Brasil, 75% da população não entende o que lê. E eu estou atrasada.


Ainda queria escrever sobre simetria e caos. E também sobre as eleições de Brent e a bruxa de Blair. E sobre o artigo do soldado americano Tim Predmore no Guardian. E sobre o blog de outro soldado americano. E dizer alguma coisa que não tenha sido dita sobre o blog da menina iraquiana. Amanhã. (Bem que eu gostaria, mas o trocadilho a bruxa de Blair não saiu daqui, mas de Gianni Carta ou outro dos talentosos da Carta Capital.)


Setembro 15, 2003

Estou obcecada-obcecada por ele. Tem uns 55, cabeludo, crespo, magro, usa um ray-ban espelhado na foto. Muito estranho, bonito e triste. Fico eu triste também, tocada. Fico intrigada, instigada. Fico desnorteada. Phil Spector foi produtor dos Ramones há muito tempo. Morava isolado, bastante só, numa mansão com dez quartos em Los Angeles. É rico, não preciso dizer. Tem distúrbios mentais sérios. E uma filha adolescente. Ela ouvia uma bandinha daqui, Starsailor. Encontrou os caras no fim do show e disse: sou filha dele, meu pai quer conhecer vocês. Os garotos foram conhecer ao vivo Spector. E o cara virou produtor do segundo disco deles. O entusiasmo de Phil, assim como um estado mental que dá respostas quando o que se faz é uma pergunta, acabou na segunda música. Spector não estava mais lá, ele sempre sai do corpo para passear. Acabou a parceria, os garotos continuaram o disco com outro produtor. Poucos meses depois Spector foi preso, está até agora, por homicídio. Uma garota de uns 40 anos foi encontrada morta, tiros, na casa dele, arma dele, só tinha ele na mansão, era muito só. Fazia uns 30 anos que ele tinha sumido. E o nome do disco da banda, emblemático: silence is easy. Obcecada-obcecada.


Conhecer alguém, arrumar um parceiro. São preocupações legítimas de metade das pessoas que você conhece. Metade desta metade desistiu, cansou, pensa que não vai achar, que não existe, ou deixou pra lá. A outra metade procura. Mas o mundo anda para a frente (é o que dizem) e por conta disso não temos mais tempo de encontrar alguém na praia, ou nas férias, ou no pub, até porque não vamos mais à praia, não temos férias e o pub não é para quem trabalha como nós, certo? Então que metade desta metade procura por métodos mais ou menos evoluídos, como agências de namoro. Em Londres tem até uma agência halal: o que há que melhor para muçulmanos. Até então tudo muito normal e civilizado, uma olhada na foto, cartas ou e-mails e, aprovado o parceiro, um encontro ao vivo. Só que o mundo anda tão para a frente que não temos mais tempo a perder nem com cartinhas e fotinhos. Como para toda demanda tem uma oferta, criaram o Speed Date, que apesar do nome não é desenho animado: é a forma como as pessoas estão procurando (e encontrando...) parceiros hoje em dia. Você se arruma bem, maquia, e troca uma idéia, durante 30 segundos, com dúzias de disponíveis que dedicam também 30 segundos de seu tempo para outras dúzias. No final de algumas horas você viu o suficiente, pode fazer uma escolha. Sim, porque não são necessários mais do que 30 segundos para bater o martelo sobre quem interessa e quem não interessa, ou precisa?


Franz West é de Viena e a Whitechapel Gallery está com uma mostra imensa dele. Nunca tinha ouvido falar, fomos. É muito bom, gostei principalmente das colagens. Mas a primeira parte da exposição são objetos de vestir, nada que Lygia Clark não tenha feito com mais primor na mesma época. Como nós já tínhamos pago o mico de tirar nossas roupas e vestir o macacão dela na Bienal de São Paulo, um macacão que tapava dos pés ao cabelo, e ficamos ali abrindo zíperes um no outro e tocando o que deveria ser uma coisa e era sempre outra, com cabelos falsos e asperezas e geléias, resolvemos deixar passar. Mas tinha um vídeo, onde algumas pessoas testavam e davam dicas de como usar os objetos. Foi um dos vídeos mais engraçados que já vi, e nem era parte da exposição. Como eles contam com uma vergonha natural das pessoas (é bem estranho ficar movendo objetos, encaixando ora na cabeça, ora no braço, ora descendo pelas costas), fizeram uma sala, espécie de provador. Você entra, fecha a cortina e paga o mico apenas pro espelho. Nem assim arriscamos. Mas na sala seguinte um cara estava filmando a reação das pessoas com as obras e nos obrigou – assim, só pedindo por favor – a fazer uma encenação do tipo sentar ali, folhear a revista, andar até lá, sentar de novo, olhar para as obras e ir embora no sinal dele. No próximo vídeo devemos estar nós, para outros rirem. É justo.


Duas horas antes, estávamos na exposição de Damien Hirst na Whitecube. Faz mais ou menos uma semana que tínhamos ido ver uma grande retrospectiva do trabalho dele, entre outros artistas contemporâneos, na Saatchi Gallery, uma galeria paga (coisa rara aqui) encarregada de mostrar a coleção do Saatchi, basicamente de Britart. Tem trabalhos fantásticos, como Marc Quinn com seu rosto esculpido de sangue, próprio sangue, congelado numa cabine de vidro. E muitos trabalhos que eu já tinha visto tanto em revistas e livros que parecia que já tinha visto ao vivo, como a cama de Tracey Emin e as santas com merda de elefante de Chris Ofili, tudo muito impactante cercado por silêncio e vazio. Não é o tipo de arte que me emociona, como não me impressiona muito Hirst. Mas a Whitecube é uma galeria muito legal, perto de casa e vamos sempre. Então fomos ver o trabalho que foi matéria em todos os jornais – aqui artistas são tão pop quanto bandas de rock, com especulações sobre a vida tanto quanto sobre a obra. E poucos são sóbrios, então geralmente tem assunto, como é o caso de Damien, que parou de beber e veio com uma obra “religiosa”, representando os discípulos e Jesus. Impacto, silêncio e vazio – de novo.


Maníaca. Eu tinha 40 minutos para gastar sem me mover e sem ninguém para falar e nada para ler. Primeiro imaginei uma forma de contar o tempo sem olhar para o pulso que de qualquer forma não carregava relógio. Imaginei que dava 8 espaços de 5 minutos cada. E que 8 era o número que somava meus pais (são 2), irmãos (mais 5) e namorado (1). Resolvi pensar em cada um. Descobri que é mais fácil encontrar palavras para definir algumas pessoas do que outras, mesmo conhecendo todas bastante. Descobri que tem características que não condizem com as palavras que as definem. E que sei uma centena de adjetivos mas esqueci pelo menos duas dúzias e me irrita muito não encontrar palavras. Mas o tempo não passou como devia e ainda tinha uns 10 minutos. Restava eu. Eu devo ser a diferença entre o que vejo em mim e como os outros me vêem.


Nem tudo o que é bom é bom porque é super-alguma coisa. Às vezes tem uns buracos de comunicação ou mal entendidos ou forçadas de estilo para cavar uma chamada, não sei. Mas o buraco é grande. Lúcio Ribeiro, em matéria na Folha, celebra que o DJ Erol Alkan vai tocar no Tim Festival. Ele tem razão, o cara é muito legal. Mas: “Tim Festival traz superstar DJ do rock”, ou “Erol Alkan fez sua fama nos pick-ups dirigindo a principal noite de rock de Londres, a Trash, no clube The End, famoso templo da dance music britânica”, que exagero. A Trash é uma noite de segunda-feira no The End, um club ok, pequeno, no centro de Londres. Custa £ 4 para entrar, Erol toca para um bando de gente de jeans e camiseta e tem cerveja mais barata até a meia noite. A balada é ótima, e tá bom assim, sem nada super-something.


Setembro 10, 2003

É um mercadão. A indústria de armas emprega 350 mil pessoas no Reino Unido e o maior cliente é o governo: gastou £13 bilhões ano passado. A terra de Tony Blair é o segundo maior exportador de armas do mundo, só perde para a terra de Bush. Então nada mais apropriado que abrigasse uma feira internacional de equipamentos e sistemas de defesa, popularmente conhecidos como armas. E nada menos inesperado que houvessem protestos, muitos. Até agora, fim da tarde do segundo de três dias de evento, 102 pessoas já foram presas. Ao invés de utilizar legislação referente a manutenção da ordem pública, estão aplicando leis anti-terrorismo para reter e revistar manifestantes protestando CONTRA a indústria e o comércio de armas. Também não dá para tudo fazer sentido no mundo.


Reclaim the Streets é o que o Flash Mob vai ser quando crescer. Uma manifestação qualquer por uma causa qualquer, organizada através da Internet. Começa num ponto de encontro e caminha para um local mantido em sigilo até a última hora para evitar de encontrar cordões de isolamento cercando a área. Se for bem organizado e a causa tiver ibope, quando inicia o deslocamento já são 200, 300 pessoas, e então só resta à polícia olhar. As idéias estão em cartazes, zines, gritos de guerra. E depois tem festa, claro.


Setembro 09, 2003

Não sei que fim levou o homem, mas lembro de uma frase do Gaspar: se não dá para assobiar, não é música. Pois fui num show sem música para os ouvidos dele. London Musicians Collective é uma organização que reúne músicos experimentais formada há quase três décadas aqui em Londres. Nos últimos 12 eles têm organizado um festival por ano. Fomos sábado que passou e saímos de lá com os ânimos alterados. Faltam palavras. Mas imagine uma orquestra com vozes, turntable, computadores, teclados, cordas, sopros, baterias tradicionais e outros instrumentos de gerar som como furadeira, paus, vasos, vento. Tocando juntos, com um maestro coordenando, músicas sem refrão. Imagine o mundo antes de você acreditar que o certo era pintar dentro das linhas. Imagine 30 pessoas espalhadas por um palco com uma dúzia de mesas e todos os fios do mundo entrelaçados; músicos de idades variadas (a estrela da noite, o japonês Otomo Yoshihide, tem 44; dois meninos com seus lap tops pareciam ter 20), equivalentes daqui e dali aos nossos Hermeto e Tom Zé. Faltaram mesmo palavras.


A London Musicians Collective tem uma rádio desde o ano passado, operando com uma licença especial, sem anunciantes, com prazo de validade sendo renovado na marra à base de assinaturas. É a melhor rádio do mundo que eu conheço. (Do mundo que conheço, não de rádios que conheço.) Resonance FM, the art of listening, é a chamada. Ali se ouve de tudo, menos o que o Gaspar chama de música. Outro dia ouvi um filme. Não, não foi uma trilha, foi um filme só de música. Uma história. Ação, drama, tensão, fim. Também ouvi pássaros. E uma aula de francês para crianças. E barulhos, colagens, misturas, mixagens para deixar o ouvinte estático. Tudo ao contrário, experimentação levada a sério, porque som não precisa ser necessariamente com início, refrão e fim. É como se eles tivessem descoberto (ou redescoberto, Pablo me lembra de Villa Lobos) que a música podia se libertar da forma como a pintura se desvinculou da reprodução.


Eu toquei flauta no colégio durante vários anos. Um dia estava lavando a flauta, porque vai ficando nojento por dentro, com baba e sujeira da mochila grudando. Separei por partes, três partes, e coloquei na pia com sabão, então passei um pano por dentro e fui secar. Tinha um inseto me olhando ali do lado. Peguei a parte de cima de flauta e aproximei do bichinho, toquei. O som que sai sem o resto é agudo, agudo. Ele se contorceu, parei. Ele andou, toquei de novo, ele se contorceu, fiquei tocando, ele morreu. Morreu e eu chorei. E se hoje tem uma mosca eu mostro para ela o caminho da rua.


O Gerald Thomas pode ser várias coisas chatas, mas não dá para negar que o cara é inteligente e bem informado. E muito irônico. Em entrevista no O Pasquim21, perguntaram se ele acreditava em Deus. “Acredito no Big Bang e no Big Ben. Acredito em Stephen Hawkings e no buraco negro e no rabino Henry Sobel. Acredito em Mahatma Gandhi. Acredito em Martin Luther King. Acredito em Nelson Mandela e em Lula. Juntando tudo isso, acho que dá Deus.”


Estava na praia no Brasil, março deste ano. Recebi um e-mail de um amigo falando de política. Ele também mora em Londres, me escreveu: se esta guerra for mesmo adiante, vai acabar na queda do Blair. Eu achei um exagero, mas o Evandro tinha razão. Não sei como ele sabia na época, mas hoje tenho certeza que alguém vai ter que pagar o preço, político, pelo dossiê que convenceu os ingleses a encarar a guerra que não termina nunca e pelo comportamento do governo em relação ao Dr. Kelly. O Campbell já tirou o time de campo: é fiel mas não é burro. O secretário de defesa Geoff Hoon apontou o ventilador para o outro lado durante o inquérito Hutton e deve deixar o cargo assim que o março londrino chegar. Sobrou pro chefe.


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