Fevereiro 26, 2004
Virginia
Ela me disse que a lucidez consiste em esquecer as perguntas. Não consigo. Por isso falei com voz baixa e falha: pai, preciso de ajuda. Em 10 minutos alguém vai bater na porta, se eu não abrir vão arrombar e então hospital. Vou tomar banho de banheira que lá sei não existe. É tudo rápido, como se banho fosse apenas para limpar a bunda, axilas, pêlos e cabelos. E como se cabelos fossem apenas para não cair nos olhos, amarrados atrás da cabeça. Mesmo assim sei que preciso dali, do meu médico, remédios e daquela falsa realidade que me ajuda a me preparar para voltar para esta. Tenho medo do mundo. É como se eu tivesse sido arrancada cedo demais e empurrada para uma vida que não consigo dominar. É esta falta de domínio que me amedronta. Não sei viver com incerteza, detesto decisões de última hora, planos que afundam na chuva e aquelas pessoas todas em volta. Mudei para o meio do mato e a falta delas quase me matou. Sei que preciso dali. É só aprender a viver com a incerteza que estou pronta para este mundo. Enfio os pés e então deito na água morna sem espuma. Mergulho até o ar acabar. Mergulho de novo e antes que o ar acabe a campainha toca. Me enrolo na toalha e abro a porta para meu pai, minha mãe e dois enfermeiros. Minha mãe tem água nos olhos, me abraça e diz que tudo vai ficar bem. Me pai sorri uma confidência falsa. Sabe que esta é uma expressão necessária na face de um pai. Peço que esperem enquanto termino meu banho. Ela sugere e eu deixo que fique comigo no banheiro. Sentada na privada, faz silêncio. Mergulho até acabar o ar, viro de um lado para o outro, respiro vapor, me sinto bem, pronta, me seco e visto jeans e camiseta. Ela me ajuda a preparar uma mala pequena com calças de abrigo e camisetas, cremes, pasta e escova de dentes, absorventes. Abro e fecho minha caixa de acessórios sem tocar em nada. Pulseiras só atrapalham, cintos são proibidos e minha vaidade não pede nada disso. Minha mãe molha bastante as duas plantas que tenho ainda antes de sairmos, o gato sumiu faz tempo. A porta bate e a casa não sente minha falta. Tenho 23 anos e já passei por isso três vezes. Na primeira eu sabia que ia passar. Na segunda pensei que fosse ficar ali naquele oco humano para sempre. Agora me limito a esperar pelas novidades. Claro que quero melhorar. É tudo o que quero. Mas sei que minhas vontades e decisões têm sido pouco úteis desde então. Não sei porque razão meu cérebro tem tantas alterações químicas, mas sei que são elas que causam este furor que resultou em nós cinco dentro daquele carro com cheiro de álcool rumo ao Hospital Psiquiátrico Fórum. Também conheço o HPF, suas enfermeiras e o gramado que termina nas árvores que não podemos alcançar. Regras que são esclarecidas conforme você tenta quebrá-las. Eu já disse para o diretor que seria mais útil fazer um livro com todas elas e distribuir aos pacientes na chegada. A pior coisa para um adulto é voltar para aquela situação infantil de ir com o dedo em direção a tomada e levar um tapinha com os dizeres: não pode. Ele me olhou como se eu mesma tivesse me infantilizado e não tive como duvidar. Então que somos cerca de 40 adultos naquele prédio, os mais jovens da minha idade, sendo tratados como crianças. Olhar para os outros me irrita, como os irrita olhar para mim. Não gostamos de espelhos aqui e qualquer um parece mais doente do que nós. Já li sobre isso. Eu leio muito sobre doenças mentais desde que tudo começou. Reconheço os sintomas e luto para espantar um por um até que não tenha mais forças ou que eles ataquem todos juntos. Eu sei quando estou ficando doente. Desta última vez, percebi que era tarde para continuar brigando quando ela disse chega, eu não posso mais, saiu chorando e não ligou. Acho que sei porque. Não justifico minhas ações, não posso defender o que é incompreensível para mim. Vou olhando o mundo passar pela janela e sei que estamos chegando quando o enfermeiro que nos acompanha sentado na parte de trás do carro começa a organizar uma maleta que ele preparou para usar mas não precisou. Nem pareço a mesma chegando aqui desta vez. Esboço reação nenhuma quando o carro entra e abrem a porta. Apenas saio e me encaminho para onde apontam. Não estou apática, nem desisti. Só não tenho para onde correr. É do mundo ali fora que fujo.
Ela me disse que a lucidez consiste em esquecer as perguntas. Não consigo. Por isso falei com voz baixa e falha: pai, preciso de ajuda. Em 10 minutos alguém vai bater na porta, se eu não abrir vão arrombar e então hospital. Vou tomar banho de banheira que lá sei não existe. É tudo rápido, como se banho fosse apenas para limpar a bunda, axilas, pêlos e cabelos. E como se cabelos fossem apenas para não cair nos olhos, amarrados atrás da cabeça. Mesmo assim sei que preciso dali, do meu médico, remédios e daquela falsa realidade que me ajuda a me preparar para voltar para esta. Tenho medo do mundo. É como se eu tivesse sido arrancada cedo demais e empurrada para uma vida que não consigo dominar. É esta falta de domínio que me amedronta. Não sei viver com incerteza, detesto decisões de última hora, planos que afundam na chuva e aquelas pessoas todas em volta. Mudei para o meio do mato e a falta delas quase me matou. Sei que preciso dali. É só aprender a viver com a incerteza que estou pronta para este mundo. Enfio os pés e então deito na água morna sem espuma. Mergulho até o ar acabar. Mergulho de novo e antes que o ar acabe a campainha toca. Me enrolo na toalha e abro a porta para meu pai, minha mãe e dois enfermeiros. Minha mãe tem água nos olhos, me abraça e diz que tudo vai ficar bem. Me pai sorri uma confidência falsa. Sabe que esta é uma expressão necessária na face de um pai. Peço que esperem enquanto termino meu banho. Ela sugere e eu deixo que fique comigo no banheiro. Sentada na privada, faz silêncio. Mergulho até acabar o ar, viro de um lado para o outro, respiro vapor, me sinto bem, pronta, me seco e visto jeans e camiseta. Ela me ajuda a preparar uma mala pequena com calças de abrigo e camisetas, cremes, pasta e escova de dentes, absorventes. Abro e fecho minha caixa de acessórios sem tocar em nada. Pulseiras só atrapalham, cintos são proibidos e minha vaidade não pede nada disso. Minha mãe molha bastante as duas plantas que tenho ainda antes de sairmos, o gato sumiu faz tempo. A porta bate e a casa não sente minha falta. Tenho 23 anos e já passei por isso três vezes. Na primeira eu sabia que ia passar. Na segunda pensei que fosse ficar ali naquele oco humano para sempre. Agora me limito a esperar pelas novidades. Claro que quero melhorar. É tudo o que quero. Mas sei que minhas vontades e decisões têm sido pouco úteis desde então. Não sei porque razão meu cérebro tem tantas alterações químicas, mas sei que são elas que causam este furor que resultou em nós cinco dentro daquele carro com cheiro de álcool rumo ao Hospital Psiquiátrico Fórum. Também conheço o HPF, suas enfermeiras e o gramado que termina nas árvores que não podemos alcançar. Regras que são esclarecidas conforme você tenta quebrá-las. Eu já disse para o diretor que seria mais útil fazer um livro com todas elas e distribuir aos pacientes na chegada. A pior coisa para um adulto é voltar para aquela situação infantil de ir com o dedo em direção a tomada e levar um tapinha com os dizeres: não pode. Ele me olhou como se eu mesma tivesse me infantilizado e não tive como duvidar. Então que somos cerca de 40 adultos naquele prédio, os mais jovens da minha idade, sendo tratados como crianças. Olhar para os outros me irrita, como os irrita olhar para mim. Não gostamos de espelhos aqui e qualquer um parece mais doente do que nós. Já li sobre isso. Eu leio muito sobre doenças mentais desde que tudo começou. Reconheço os sintomas e luto para espantar um por um até que não tenha mais forças ou que eles ataquem todos juntos. Eu sei quando estou ficando doente. Desta última vez, percebi que era tarde para continuar brigando quando ela disse chega, eu não posso mais, saiu chorando e não ligou. Acho que sei porque. Não justifico minhas ações, não posso defender o que é incompreensível para mim. Vou olhando o mundo passar pela janela e sei que estamos chegando quando o enfermeiro que nos acompanha sentado na parte de trás do carro começa a organizar uma maleta que ele preparou para usar mas não precisou. Nem pareço a mesma chegando aqui desta vez. Esboço reação nenhuma quando o carro entra e abrem a porta. Apenas saio e me encaminho para onde apontam. Não estou apática, nem desisti. Só não tenho para onde correr. É do mundo ali fora que fujo.
Fevereiro 25, 2004
Relatório que vazou do Pentágono para o Observer de domingo prevê para daqui a duas décadas o que eu aguardava para 2050: caos. Não este que conhecemos hoje, um caos gerado por desastres naturais e alterações climáticas decorrentes da nossa forma carinhosa de tratar o planeta. Se vamos sofrer, aparentemente eles querem que os EUA se preparem para sofrer menos. É justo. Os norte-americanos representam 5% da população mundial mas consomem entre 25% e 30% da capacidade produtiva do planeta, são os grandes consumidores de petróleo do mundo (26%) e os maiores emissores de gás carbônico (24%). O relatório “vaza” num momento curioso: Kerry inclui em seu programa de governo ações para minimizar desgastes naturais, enquanto Bush sequer aceita a idéia de aquecimento global. O cenário previsto pelo Pentágono é de clima siberiano para a Inglaterra; guerras com base em sobrevivência ao invés de religiões e ideologias, sendo a grande batalha por água; tempestades violentas; fortificação de áreas ricas para evitar a invasão pelos pobres; desenvolvimento inevitável de armamento nuclear e por aí vai. Eles não esquecem de citar a Amazônia e o Rio Amazonas como fontes preciosas de biodiversidade, água e oxigênio.
O avô de Michael Holroyd deu carona para uma menina na greve geral de 1926 e não voltou para casa pelos próximos oito anos. Ela tinha pouco mais idade do que a filha de Fraser Holroyd, que, terminado o romance, voltou para a esposa e o período negro da história familiar ficou enterrado até que o menino Michael nascesse, crescesse, virasse escritor e se metesse a biografar a própria família. O maior trabalho de pesquisa foi encontrar, e então seguir os passos dados por Agnes May, a moça da carona em questão. Isso porque ela casou quatro vezes (abandonou o segundo marido por Fraser), contou histórias diferentes de vida em cada registro de cartório, mudou de cidade, de idade, de nome dos pais. A história é boa, mas as entrelinhas são melhores. Enquanto isso acontecia, a filha de Fraser, sete anos mais jovem do que May, esperou comprometida durante dez anos por um casamento que não veio e gastou o resto da vida cuidando de todos os velhinhos da família. São as pessoas que reservam seu papel na história.
Na internet: a inglesa leiloou a virgindade para não terminar a faculdade tão endividada. Ela não se guardou este tempo todo, é gay e diz que permanece com hímen. Engraçado ver o conceito de virgindade ainda, ou de novo, associado com a membrana. E Peter Randall anunciou e vendeu o rim por £110 mil para pagar o tratamento adequado a paralisia cerebral da filha de seis anos. Viajou ontem para os Estados Unidos, onde a transação é legal, para fazer exames e garantir compatibilidade com o comprador.
Ontem, com dor de cabeça, entendi porque a grande maioria das pessoas prefere ler The Sun do que Guardian. Cansa menos.
Não é que Blair mostrou finalmente porque muitos acreditavam que ele tinha alguma coisa a ver, ainda que de raspão, com a esquerda: ele é favorável à interferência do Estado. Crianças vão passar por testes detectores de uso de drogas nas escolas.
Conforme esperado, Tony Blair anunciou medidas para resguardar o país dos dez novos membros a integrar a EU a partir de maio. Restrições serão postas para atrair, conforme palavras do ministro, “the bright and the better”. Estes sempre foram globalizados. Na prática, apenas o básico: os novos integrantes do bloco não terão acesso aos benefícios. O anúncio garante o que aqui ingleses já desejavam na boca pequena: italianos, alemães, espanhóis, franceses tudo bem, portugueses ainda vai, mas poloneses, húngaros, lituanos... As restrições iniciais podem ser ampliadas conforme taxas de emprego/desemprego. Mas o governo aponta meio milhão de postos de trabalho vagos hoje no sudeste da Inglaterra.
A péssima óbvia notícia: vão punir a BBC.
Uma pessoa é o que ela se lembra, e deixa de ser o que esquece. Não existem fatos, só uma manipulação atrás da outra. É só lembrar da adolescência e pensar seriamente em como todas as lembranças são absurdas, aquilo não pode ter acontecido... Mas também, sei lá, adolescência tem cada coisa...
Pequenas coisas que melhoram muito a vida: detergente líquido de alecrim e manjericão, lenço umedecido de papaia, buzinas estragadas e Guardian sobre a cama no sábado.
((((Ontem atendi a Cherie Blair. Ela a.do.ra panquecas. Isso todo mundo sabe, ela casou com um. Em eventos em que atende como barrister, usa o nome de solteira, Cherie Booth. É compreensível.))))
O avô de Michael Holroyd deu carona para uma menina na greve geral de 1926 e não voltou para casa pelos próximos oito anos. Ela tinha pouco mais idade do que a filha de Fraser Holroyd, que, terminado o romance, voltou para a esposa e o período negro da história familiar ficou enterrado até que o menino Michael nascesse, crescesse, virasse escritor e se metesse a biografar a própria família. O maior trabalho de pesquisa foi encontrar, e então seguir os passos dados por Agnes May, a moça da carona em questão. Isso porque ela casou quatro vezes (abandonou o segundo marido por Fraser), contou histórias diferentes de vida em cada registro de cartório, mudou de cidade, de idade, de nome dos pais. A história é boa, mas as entrelinhas são melhores. Enquanto isso acontecia, a filha de Fraser, sete anos mais jovem do que May, esperou comprometida durante dez anos por um casamento que não veio e gastou o resto da vida cuidando de todos os velhinhos da família. São as pessoas que reservam seu papel na história.
Na internet: a inglesa leiloou a virgindade para não terminar a faculdade tão endividada. Ela não se guardou este tempo todo, é gay e diz que permanece com hímen. Engraçado ver o conceito de virgindade ainda, ou de novo, associado com a membrana. E Peter Randall anunciou e vendeu o rim por £110 mil para pagar o tratamento adequado a paralisia cerebral da filha de seis anos. Viajou ontem para os Estados Unidos, onde a transação é legal, para fazer exames e garantir compatibilidade com o comprador.
Ontem, com dor de cabeça, entendi porque a grande maioria das pessoas prefere ler The Sun do que Guardian. Cansa menos.
Não é que Blair mostrou finalmente porque muitos acreditavam que ele tinha alguma coisa a ver, ainda que de raspão, com a esquerda: ele é favorável à interferência do Estado. Crianças vão passar por testes detectores de uso de drogas nas escolas.
Conforme esperado, Tony Blair anunciou medidas para resguardar o país dos dez novos membros a integrar a EU a partir de maio. Restrições serão postas para atrair, conforme palavras do ministro, “the bright and the better”. Estes sempre foram globalizados. Na prática, apenas o básico: os novos integrantes do bloco não terão acesso aos benefícios. O anúncio garante o que aqui ingleses já desejavam na boca pequena: italianos, alemães, espanhóis, franceses tudo bem, portugueses ainda vai, mas poloneses, húngaros, lituanos... As restrições iniciais podem ser ampliadas conforme taxas de emprego/desemprego. Mas o governo aponta meio milhão de postos de trabalho vagos hoje no sudeste da Inglaterra.
A péssima óbvia notícia: vão punir a BBC.
Uma pessoa é o que ela se lembra, e deixa de ser o que esquece. Não existem fatos, só uma manipulação atrás da outra. É só lembrar da adolescência e pensar seriamente em como todas as lembranças são absurdas, aquilo não pode ter acontecido... Mas também, sei lá, adolescência tem cada coisa...
Pequenas coisas que melhoram muito a vida: detergente líquido de alecrim e manjericão, lenço umedecido de papaia, buzinas estragadas e Guardian sobre a cama no sábado.
((((Ontem atendi a Cherie Blair. Ela a.do.ra panquecas. Isso todo mundo sabe, ela casou com um. Em eventos em que atende como barrister, usa o nome de solteira, Cherie Booth. É compreensível.))))
Fevereiro 09, 2004
Ele perguntou, neve caindo lá fora: no dia 31 você tomou champanhe na beira da praia? “Tomei.” “Que clichê.”
Inverno voltou, Matilda cria um tapete de folhas por dia no canto da sala. Contrariando os fatos, é primavera dentro de casa.
Bem, a história está entalada na minha garganta e por isso ainda vou publicar muito por aqui. Quer dizer que a culpa é das agências de inteligência? Quer dizer que americanos e ingleses foram para a guerra sem aprovação da UN com base em informações mal apuradas? Ou será que as informações foram mal interpretadas? A julgar por Blix e Kelly, o caso é este. Tem que ter um inquérito para avaliar se as decisões políticas foram condizentes com os relatórios que os governos tinham em mão. Aí quero ver alguém não chegar a conclusão que as razões para a guerra foram políticas, não uma questão de segurança nacional. E então sim, como pediu Blair, deixar que a história os julguem.
Ah, eu adoro a BBC e sua falta de obediência. Terminado o inquérito Hutton, o conselho curador sugeriu e Greg Dyke renunciou ao cargo de diretor-geral. Uma semana depois, uma vaquinha dos funcionários bancou página inteira em jornal contestando a decisão. E ele abriu o berreiro: divulgou uma carta que enviou ao primeiro ministro um dia após inciada a guerra. Ali, dizia que eram injustas as críticas que a BBC vinha sofrendo porque a cobertura jornalística não coincidia com a visão do governo. E, em entrevista, acusou o governo de ter intimidado os funcionários da BBC para que noticiassem o que o governo queria sobre a guerra no Iraque. Se existissem mais editores como ele eu me apaixonava pelo jornalismo de novo.
Ele tomou vinho, cachaça e Tandrilax antes do meio-dia. O Tandrilax fez mal.
Segundo Jurka, minha conhecida da Lituânia, todo mundo do país dela vai vir para cá em maio. O governo sabe e está tentando se ver livre de ilegais para ter emprego para este povo. Suécia está criando leis para evitar que os novos participantes da comunidade européia entrem no país e tenham acesso aos benefícios. UK é o mais assistencialista de todos. Dá casa, comida, auxílio desemprego por anos a fio, educação... Os ingleses estão chiando, a ver se fazem barulho suficiente. Tem uma brecha pequena que os brasileiros estão usando. Ou você pensa que exilado é tudo do Afeganistão?
E nem falei sobre o Brasil: foi muito bom. Tony tinha razão: um clichê. Depois eu volto para lá.
Inverno voltou, Matilda cria um tapete de folhas por dia no canto da sala. Contrariando os fatos, é primavera dentro de casa.
Bem, a história está entalada na minha garganta e por isso ainda vou publicar muito por aqui. Quer dizer que a culpa é das agências de inteligência? Quer dizer que americanos e ingleses foram para a guerra sem aprovação da UN com base em informações mal apuradas? Ou será que as informações foram mal interpretadas? A julgar por Blix e Kelly, o caso é este. Tem que ter um inquérito para avaliar se as decisões políticas foram condizentes com os relatórios que os governos tinham em mão. Aí quero ver alguém não chegar a conclusão que as razões para a guerra foram políticas, não uma questão de segurança nacional. E então sim, como pediu Blair, deixar que a história os julguem.
Ah, eu adoro a BBC e sua falta de obediência. Terminado o inquérito Hutton, o conselho curador sugeriu e Greg Dyke renunciou ao cargo de diretor-geral. Uma semana depois, uma vaquinha dos funcionários bancou página inteira em jornal contestando a decisão. E ele abriu o berreiro: divulgou uma carta que enviou ao primeiro ministro um dia após inciada a guerra. Ali, dizia que eram injustas as críticas que a BBC vinha sofrendo porque a cobertura jornalística não coincidia com a visão do governo. E, em entrevista, acusou o governo de ter intimidado os funcionários da BBC para que noticiassem o que o governo queria sobre a guerra no Iraque. Se existissem mais editores como ele eu me apaixonava pelo jornalismo de novo.
Ele tomou vinho, cachaça e Tandrilax antes do meio-dia. O Tandrilax fez mal.
Segundo Jurka, minha conhecida da Lituânia, todo mundo do país dela vai vir para cá em maio. O governo sabe e está tentando se ver livre de ilegais para ter emprego para este povo. Suécia está criando leis para evitar que os novos participantes da comunidade européia entrem no país e tenham acesso aos benefícios. UK é o mais assistencialista de todos. Dá casa, comida, auxílio desemprego por anos a fio, educação... Os ingleses estão chiando, a ver se fazem barulho suficiente. Tem uma brecha pequena que os brasileiros estão usando. Ou você pensa que exilado é tudo do Afeganistão?
E nem falei sobre o Brasil: foi muito bom. Tony tinha razão: um clichê. Depois eu volto para lá.