Maio 27, 2004
A noite foi movimentada. Tive um sonho com olfato em meio a outros. Eu chegava na casa da minha avó, que já não vive a apenas um oceano de distância, respirava fundo e enchia os pulmões de um cheiro que só existiu lá. Andava até o fim do corredor e encontrava ela contente, cercada por velhinhas que nunca conheci. Ela levantou do sofá e aquele abraço de aniversário - no sonho, o dela; na vida real o meu. E então encontrava o Odyr na National Gallery, outro abraço. E depois era aniversário da minha mãe, e abraços nela, meu pai, minha irmã e irmãos mais novos. E novo sonho só para poder abraçar os imãos mais velhos: a gente ia ao cinema juntos. Acho que, no fundo, foram todos planejados. Eu já fiz isso muito. Deitava concentrada num assunto, ia encaminhando uma história, um roteiro, e quando caía no sono perdia o controle do fim, mas garantia o começo. Ou, outra técnica: acordava com um sonho pela metade, e queria terminar ele. Então ficava desenhando o fim, de olhos fechados, até dormir de novo e ter um final feliz. Ali eu ressuscitava mortos, saía vitoriosa de perseguições e ainda podia ficar com o mocinho. Nada tão bom quanto os abraços de hoje.
Maio 26, 2004
A quem interessar possa: um cáctus morreu na nossa ausência, virou mofo. Mas a Robi se mudava e tinha reservado umas coisas para mim. Entre elas, três cáctus. Um torto lindo, dá vontade de dar colo, um esquisitão e um terceiro doentinho. A coleção de cáctus que Pablo preveu numa música nos idos 1999 ganha sentido.
Cumprir anos não é difícil, difícil é acreditar que já passou tudo isso. O corpo mostra o que minha vida esconde: amadurecimento.
Fazer 29 anos tem vantagens: você é amigo dos seus pais e as pedras no sapato são pedras, mesmo.
Coisas incríveis acontecem nesta vida. A mais recente foi: depois de uma semana fabulosa numa Barcelona fabulosa com amigos tanto quanto, chegar de volta aos 21 graus na sombra (só há sombra) em Londres, ir pro meu emprego espetacular e ainda assim ficar feliz por estar de volta.
Barcelona, para quem não sabe, é aquela cidade onde moram Fer e Jorge, Nik, Marina e Xesco, onde o sol é forte e o mar frio, as ruelas separam prédios descascados e sacadas com roupas penduradas, protegidas do céu por toldos, e a língua é o catalão. Tudo isso comprova e alenta: a Europa não existe. E desde que cheguei corrijo todo mundo: como estava na Espanha? 'Eu fui pra Catalunha.'
Minimundo. Nossa casa tem formigas de plástico subindo pela parede.
Escritos de geladeira e heating, literalmente:
toma uma idéia
corra o mundo
volta para perto
+
saudade do que não fiz
+
fogo água festa mosca
simples vida
+
sabe surpresa animal
bom mau
entre muito vira beijo
voa morte
+
todo corpo é maior que o sonho
+
infinito acaba também
+
eu sussurro
ele quieto
respira morde
meu arrepio
Somos todos muito dramáticos nesta família. Se alguém dorme muito quieto, vou logo checar se respira. Sacudo ou coloco o dedo na frente da narina. E meu irmão Cacá, tinha como que 5 anos, faltou luz e saiu gritando pela casa: socoooorro, eu estou ceegoooo.
Cumprir anos não é difícil, difícil é acreditar que já passou tudo isso. O corpo mostra o que minha vida esconde: amadurecimento.
Fazer 29 anos tem vantagens: você é amigo dos seus pais e as pedras no sapato são pedras, mesmo.
Coisas incríveis acontecem nesta vida. A mais recente foi: depois de uma semana fabulosa numa Barcelona fabulosa com amigos tanto quanto, chegar de volta aos 21 graus na sombra (só há sombra) em Londres, ir pro meu emprego espetacular e ainda assim ficar feliz por estar de volta.
Barcelona, para quem não sabe, é aquela cidade onde moram Fer e Jorge, Nik, Marina e Xesco, onde o sol é forte e o mar frio, as ruelas separam prédios descascados e sacadas com roupas penduradas, protegidas do céu por toldos, e a língua é o catalão. Tudo isso comprova e alenta: a Europa não existe. E desde que cheguei corrijo todo mundo: como estava na Espanha? 'Eu fui pra Catalunha.'
Minimundo. Nossa casa tem formigas de plástico subindo pela parede.
Escritos de geladeira e heating, literalmente:
toma uma idéia
corra o mundo
volta para perto
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saudade do que não fiz
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fogo água festa mosca
simples vida
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sabe surpresa animal
bom mau
entre muito vira beijo
voa morte
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todo corpo é maior que o sonho
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infinito acaba também
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eu sussurro
ele quieto
respira morde
meu arrepio
Somos todos muito dramáticos nesta família. Se alguém dorme muito quieto, vou logo checar se respira. Sacudo ou coloco o dedo na frente da narina. E meu irmão Cacá, tinha como que 5 anos, faltou luz e saiu gritando pela casa: socoooorro, eu estou ceegoooo.
Maio 11, 2004
Como toda boa adolescente de esquerda, eu frequentava bares na Osvaldo Aranha, onde tomava cachaça de catuaba ou guaraná com gelo em copos de plástico cheios até a borda por cinquenta centavos. E tinha amigos do subúrbio que, como todo bom adolescente de subúrbio, eram punks. Um dia, caminhando no centro da cidade, encontro eles num protesto na frente do Mc Donalds. Páro para um oi e quando pego o flyer (naquele tempo um papel recortado e mimiografado com a razão do protesto em letras cursivas; eu não tenho oitenta anos, é que tudo mudou rápido demais), fico rosa. Saio dali o mais rápido possível. Isso porque eu acredito em quase todas as teorias de conspiração, mas sei que o Mc Donalds não mata meninos de rua para fazer hambúrgueres.
Quem apoiou a guerra mas ficou chocado com estas 'atrocidades' no tratamento de iraquianos em prisões matou umas aulas de história e perdeu o fio da meada. Uma guerra é ganha justamente com base em atrocidades: se mata, se tortura, se prende e depois não se pergunta. Você aniquila o seu inimigo, não fica debatendo com ele. Absolutamente normal. Talvez o estranho seja estas fotos-souvenir terem vazado. É que hoje os tablóides pagam muito bem por este tipo de produto. Só não dava para esperar que um país que não respeita resoluções da ONU respeite convenções. E a recruta Lynndie England, belo bode expiatório. Eu estou com ela entalada na garganta, como se não fosse apenas um fruto deformado e azedo de uma cultura militar que ainda vai nos dar muitas surpresas de mal gosto.
Eu não sabia que era uma fonte de preocupação nacional o que o Lula bebe ou deixa de beber. Desde que não seja o tal do Romanée Conti, já que ex-metalúrgico combina bem mais com destilados baratos. Mas a informação mais valiosa que a matéria do NYT me deu foi esta: o Brizola ainda não se aposentou.
O Pablo falou que estava pintando opium poppy e no dia seguinte ela entregou o pacote para ele no meio da galeria: um vaso com mudas da planta. Dá como inço no jardim dela, explicou. Por isso agora tenho estas plantas novas na janela da cozinha, recebendo atenção e o melhor sol da casa. Crescendo como inço, é verdade.
O Brasil está na Selfridges. Para quem acha que o país vai entrar na moda, notícia bombástica: saiu de moda. Nada mais ultrapassado do que a Selfridges e sua cultura de butique, vendendo a nossa pasteurizada em fitas do Senhor do Bom Fim, Cristo Redentor e carnaval.
Fui no supermercado, comprei o Guardian e dois pacotes de saladas prontas. Era despedida. Sabia que eles iam publicar matéria sobre elas, as saladas prontas, e que nunca mais poderia comprá-las. Sábado seguinte fui ao supermercado de novo, Guardian e saladas prontas. Não deu. A vida sem rúcula perde parte da graça. Quando voltar para o Brasil, troco a idéia dos cachorros por uma horta no jardim.
Te afogo pra te acordar. Tiro teu ar pra valorizar teus pulmões cheios. Tua vida transborda, minhas mãos vazias. Os riscos não te contam nosso futuro. Meu palpite escondo na caixa d'água, a mesma na qual te afogo pra te acordar.
Este blog entra num retiro festivo: vou receber amigos e então viajar rumo ao sol e a outros amigos. Se eu voltar, ele volta.
Quem apoiou a guerra mas ficou chocado com estas 'atrocidades' no tratamento de iraquianos em prisões matou umas aulas de história e perdeu o fio da meada. Uma guerra é ganha justamente com base em atrocidades: se mata, se tortura, se prende e depois não se pergunta. Você aniquila o seu inimigo, não fica debatendo com ele. Absolutamente normal. Talvez o estranho seja estas fotos-souvenir terem vazado. É que hoje os tablóides pagam muito bem por este tipo de produto. Só não dava para esperar que um país que não respeita resoluções da ONU respeite convenções. E a recruta Lynndie England, belo bode expiatório. Eu estou com ela entalada na garganta, como se não fosse apenas um fruto deformado e azedo de uma cultura militar que ainda vai nos dar muitas surpresas de mal gosto.
Eu não sabia que era uma fonte de preocupação nacional o que o Lula bebe ou deixa de beber. Desde que não seja o tal do Romanée Conti, já que ex-metalúrgico combina bem mais com destilados baratos. Mas a informação mais valiosa que a matéria do NYT me deu foi esta: o Brizola ainda não se aposentou.
O Pablo falou que estava pintando opium poppy e no dia seguinte ela entregou o pacote para ele no meio da galeria: um vaso com mudas da planta. Dá como inço no jardim dela, explicou. Por isso agora tenho estas plantas novas na janela da cozinha, recebendo atenção e o melhor sol da casa. Crescendo como inço, é verdade.
O Brasil está na Selfridges. Para quem acha que o país vai entrar na moda, notícia bombástica: saiu de moda. Nada mais ultrapassado do que a Selfridges e sua cultura de butique, vendendo a nossa pasteurizada em fitas do Senhor do Bom Fim, Cristo Redentor e carnaval.
Fui no supermercado, comprei o Guardian e dois pacotes de saladas prontas. Era despedida. Sabia que eles iam publicar matéria sobre elas, as saladas prontas, e que nunca mais poderia comprá-las. Sábado seguinte fui ao supermercado de novo, Guardian e saladas prontas. Não deu. A vida sem rúcula perde parte da graça. Quando voltar para o Brasil, troco a idéia dos cachorros por uma horta no jardim.
Te afogo pra te acordar. Tiro teu ar pra valorizar teus pulmões cheios. Tua vida transborda, minhas mãos vazias. Os riscos não te contam nosso futuro. Meu palpite escondo na caixa d'água, a mesma na qual te afogo pra te acordar.
Este blog entra num retiro festivo: vou receber amigos e então viajar rumo ao sol e a outros amigos. Se eu voltar, ele volta.