Junho 30, 2004

O lugar ingovernável passado adiante como uma batata quente. E o The Sun já lavou as mãos: 'JOB DONE: 9114 days after Saddam seized Iraq, we set it free'. 'We', vejam só, 'set it free'. Destoa ridiculamente de todas as outras manchetes. A mais bela capa do dia foi do Independent: não se via tanto espaço branco assim numa capa de jornal há anos. É pra respirar fundo, algo que precisamos. E o Guardian, ainda bem, sempre nos brindando com perguntas.


Citando a citação, Verissimo diz que Porto Alegre é uma cidade boa para voltar. Sim, é preciso sair antes.


Entrei no Orkut e o que eu previa aconteceu: saí. Lembra aqueles Meu Questionário de quinhentos anos atrás, sem a caligrafia e aquele traço que saía do último 'o' de questionário e, em movimento circular, sublinhava a palavra. Aquilo, sim, era legal. E sem contar aqueles beijos impressos de batom colocado um segundo antes, que ainda nem usávamos batom.


A Karen chega de Viena em meia hora e daqui a uma semana vai de volta. Daí vai ser nossa vez de ir para Edinburgo dançar rock etc. Só depois, o blog volta - acabado e de ressaca, como convém.


Junho 27, 2004

Olhem isso. E isso. Perfeitos.


Junho 25, 2004

Conheci ele no dia em que fui atropelado pelo tempo. As rugas riscaram quarenta e nove anos em volta dos olhos nas vinte e quatro horas em que convivemos. O bom humor eu perdi bem depois da juventude, junto com a bolsa e a agenda com nossa foto.


Hoje quando lermos nos jornais sobre a derrota inglesa para Portugal, vamos todos esquecer da outra derrota, bem maior mas confinada na página três. Soberania não se dá, mas se tira. Eles não desistiram de construir a deles à força, nem vão. Colocar todos no mesmo balaio de Saddam é ignorar o que falam os últimos cem mortos.


Vamos imaginar que o governo americano, depois de apoiar freneticamente os militares brasileiros na época da ditadura, ficasse de mal com eles, como aconteceu com Saddam Hussein. E resolvesse libertar os brasileiros daquela ditadura que ajudou a criar, Madalena arrependida. Então, depois de invadir o país, matar dezenas de centenas, entre eles centenas de inocentes, e abusar de nossos prisioneiros tal qual a ditadura fazia (entre outras trapalhadas possíveis de imaginar ou deduzir), o governo americano e seus aliados devolveriam a nossa soberania na forma de um administrador escolhido a dedo e por eles. Só não me diga que neste caso você estaria disposto a lutar pelo seu país, como este bando de iraquianos extremistas.


Junho 24, 2004

Toca o telefone no ônibus, ela atende: 'alô' (...) 'sim' (...) 'ah, sim, ela disse que você ligaria, que queria me conhecer' (..............) 'hihihi' (.......) 'indo para casa' (..............) 'eu? porquê? acha que eu tenho quantos anos?' (...) 'não sou criança', afirmou (.....) 'amanhã? não posso' (...) 'na.... na quinta eu posso' (..................) 'tá combinado. espero teu telefonema na quinta. tchau!'
Conversas de celular em ônibus são melhores do que a lista de compras do cidadão da frente na fila de supermercado. E isso deve ter ainda mais graça no portinho, onde todo mundo fala a mesma língua. Hoje perdi uma conversa incrível em turco.


Mas tudo isso, tudo isso, apenas porque o ônibus demorou dez minutos num trajeto de vinte, as ruas desertas e os barulinhos de ehhh, ohhh, e logo que cheguei em casa os vizinhos celebravam e quero muito saber para quem eles torcem, mas uma hora de conexão depois ainda não vi quem está ganhando o jogo entre Inglaterra e Portugal. Agora gritaram lá de baixo do pub, com janelas em bandeiras de cruz vermelha, e tenho certeza que este gol foi deles. Esta Eurocopa é um acontecimento: tem que saber com que humor, trânsito e ressaca alheia vamos deparar amanhã. Checo a BBC, está tendo pênaltis: meus vizinhos são definitvamente portugueses e no pub a respiração está suspensa. Vou tomar banho de banheira.


Tire a sua dor do caminho que eu quero passar com o meu sorriso.


O supermercado que mora ao lado tem seguranças, sempre falando com seus walk talks e espiando entre as prateleiras. Somos todos culpados e eu procuro deixar minhas mãos à mostra para que não se estressem. Mas ontem eles perderam toda a pose. Ouvi um chamando o outro no rádio: 'Bravo one to Bravo two'. Repeti comigo: 'Bravo one to brahahahahaha'.


Minha vida é minha escolha. A tua, tua. Só não me diga que a tua é menos besta do que a minha: tirou as palavras da minha boca.


Junho 20, 2004

Te dou uma laranja, ficas feliz.
Te dou outra laranja. Não ficas.
Te dou um morango, ficas feliz.
Te dou outro morango. Não ficas.
Te dou um mundo ficas feliz.
Te dou o mesmo. Não ficas.
Te dou outro. Não ficas.
Te dou o mesmo mundo da primeira laranja, ficas.
Por isso inventamos os macacos e o condicionamento.


'I'm into fashion now', disse, e ele fingiu que não tinha ouvido. Já foi muito difícil entender, quando ela tinha nada disso.


Não entendo de carro e se passar um Mustang por mim não vou reconhecer e se reconhecer não sei se ainda vale a pena comentar com meu irmão ou se é coisa superada. Aliás, acho que acho Mustang feio, se é como estou pensando, aquela coisa baixinha e arredondada. Tenho os meus fetiches, claro. Uma prateleira cheia de discos, ou estojos de piratas, que seja. Vinil e toca discos. Livros. Um computador portátil. Tênis All Star. Jóias não gosto, prefiro plástico e borracha. Salto alto já usei muito mas hoje não dá e olhando elas acho que não se anda bem de salto. Depilo (mas a Dani não depila e não acho feio - minha prima que conheci adulta e por acaso porque é parente vários graus depois de primo irmão). Pinto unhas e rôo parcialmente ao mesmo tempo. Meu padrão de beleza são pintas. Acho pele pálida bem ok. E calça jeans puída. Reguinhos a parte mais sexy do ser humano. Cáctus tortos. Incenso Nag Champa. Música brasileira do século passado. Arte deste século. Gosto não se discute, se lamenta profundamente.


Ok, nunca vou voltar, vou ir. E todos estão lá. Ainda assim custo a acreditar que é o melhor a fazer.


Nunca, nunca comece a se ensaboar pelos pés, na medida que for subindo a água vai escorrendo e sujando a parte de baixo novamente. Cebolas, corte-as ao comprido, no sentido das linhas: ficam menos ácidas e mais saborosas. Ouça com atenção aos maniáticos.


Bala com vitamina C, leite com extra cálcio (pq tiraram todo durante o interminável processso de industrialização), refrigerante com vitamina E e agora perfume de ferormônio. Baudrillard ainda vai ter toda a razão.


Kingsland High Street, nove horas da manhã, um sábado absolutamente normal. O vizinho ouve música eletrônica alto, ainda. Eu ouço música alto, já. E lá embaixo, já e ainda por cima, o auto falante grita contra a guerra, aquela que não acaba mais.


No ônibus de manhã bem cedo tem duas categorias de pessoas: as já (aquelas que começaram o dia de madrugada) e as ainda (que não terminaram o dia anterior). A diferença tá na cara com maquiagem borrada ou fresca, tá no cheiro de perfume ou cigarros, tá na embriaguês de sono ou álcool. Faz tempo que não me enquadro na categoria ainda, e nem cheguei aos trinta. Vamos providenciar.


Já não me impressiona o que dá errado, mas o que dá certo. Tem momentos que olho e penso que vai acontecer alguma coisa séria, mais séria do que o que já acontece, daquelas que estão em toda esquina, generalizadas. Mas o soco nunca vem, o grito é sempre baixo e as costas são a resposta da maioria dos ódios. O ser humano é muito pacífico mesmo. Violenta é a política.


Não dá deixar eles um minuto sozinhos sequer. Fui no supermecado e quando voltei os cáctus já tinham crescido. Estão ficando em formas cada vez mais esdrúxulas. E o ópium, nem parece o mesmo. Duas das mudas morreram de cara, a que sobrou cresceu como pôde, com folhas e flores que desabrocharam e as pétalas despencaram deixando ali o bulbo, estufado, no alto de seus 50 centímetros de caule e espiando sempre em direção da janela. Já tem vaso novo para virar plantação sem fins psicotrópicos, falta terra.


O nome de uma coisa é tão importante quanto a coisa em si. Não?


Junho 12, 2004

A revista de ontem do jornal Evening Standard saiu com um ensaio espetacular: sugestão de guarda-roupa para férias. O ponto alto é um vestido longo, azul com flores em verde-vermelho-amarelo, babados e penduricalhos esvoaçantes, o modelo ideal para coquetéis noturnos na beira da piscina, sugere o repórter. Por £3965. A piscina, a viagem e a modelo não estão íncluídos no preço.


'Ele é muito legal, tem um corpão mas é feio de rosto', disse uma sobre o seu. 'É tão bonzinho', disse a outra sobre o próprio. 'Se tiver filhos quero que se pareçam comigo, o Matias é muito feio, coitado', opinou a outra sobre o dela. Para mim, realismo não tem nada a ver com amor, que é cego.


Peguei cedês na library para gravar, entre eles um The Cure. E quando começou uma música o Pablo saiu dançando como se dançava nas reuniões dançantes de 1988. Eu também fui mostrar como eu dançava aquela música, e ele disse: isso é como você dança hoje. Obrigada. Eu sou é muito electro, tem nada de descoordenação aqui.


Tinha duas horas, tinha sol e tinha parque. Tirei os tênis e me atirei, bolsa como um travesseiro, entre as pessoas com mangas-calças-blusas arregaçadas. Fui indo, indo, indo em direção ao sono até que sinto um chupão no meu dedão do pé esquerdo, então outro chupão no do direito. Como não podia ser a Bisteca, a cadela que mora com meus pais no Brasil e é a maior chupadora de dedões que conheço, abri os olhos para verificar o bicho. Um salsichinha preto e baixo, com dois donos histéricos que vieram berrando atrás dele, mandando não lamber o pé dos outros que era falta de educação. Eles, sim, me incomodaram profundamente.


Pois me lembrei e não posso deixar de contar. Na casa tinha uma janela com grade que dava para o terreno vizinho, onde vivia um canavial. Imagino que apenas pessoas com mais de 25 anos leiam este blog, então não preciso explicar o que é um canavial, vocês num passado distante já viram um. Pois minha irmã enfiou a cabeça na grade por alguma razão que desconheço, mas crianças não precisam de razão para isso, muito menos a Bárbara. Só que ela conseguiu entrar ali mas não sair. E foi ficando. A empregada, responsável pelas crianças durante as tardes, ligou para minha mãe e ouviu: 'eu estou trabalhando, se ela conseguiu colocar a cabeça consegue tirar'. Então a moça ali pensando como resolver o problema, eu junto. Uma das possibilidades era serrar. Acho que me lembro de acalmar minha irmã dizendo: se até de noite tu não sair daí, eles chamam o serralheiro. Mas então surgiu a idéia genial. Veio dela: vamos jogar um balde de água fria na cabeça, pelo lado de fora, a Bárbara se assusta e sai dali. Era sério. Tão sério que antes disso minha irmã se contorceu e se libertou. Claro que todos os fatos deste post devem ter sido incrivelmente manipulados pelo tempo e pela memória, já que nada disso pode ter realmente acontecido.


Dos quatro ingleses e seis europeus (todos vivendo aqui há mais de 10 anos) com quem conversei no dia das eleições, nenhum votou. Um não sabia o que era mesmo que estavam escolhendo além do prefeito de Londres, o outro não recebeu os papéis em casa e não sabia que bastava se cadastrar pela internet ou correio, e todos os outros riram quando perguntei porque não tinham votado. A expectativa é que apenas 45% dos 344 milhões de eleitores europeus apareçam para escolher seus candidates ao Parlamento Europeu. Isso, na Europa. Em 1979, a primeira eleição democrática para selecionar MEPs, o índice foi de 63%. Mas, por aqui, não chega a 30%. Mesmo assim, deixaram rastro: Blair está com a reputação comprometida, e com ela a dos trabalhistas; os imigrantes não são bem vindos, ao menos não sem restrições e limites; Euro não, obrigado; a polarização conservadores/trabalhistas já não abriga a maioria dos sonhos.


Junho 08, 2004

Todo mundo sabe que menos + menos = mais, e que não + não = sim.


Cada povo tem o novo e o bobo que merece. Eu adoraria acreditar que é o Bush o idiota, não nós. Aquele sotaque infame é só para nos fazer sentir melhor, camarada. Dick Chenney não é inocente nem culpado, apenas trabalha no seu rumo. Assim como não é o Palocci quem manda no Brasil, nem o único responsável pelos indícios positivos da economia que a Veja fez o favor de me contar que existem. Fácil transformar o presidente num idiota e o Palocci no homem que usa 'gráficos e paciência para convencer Lula', o besta dos trópicos, aquele que apesar de uma adega bem servida não resiste a uma cachaça. Direitos iguais: o jornalista americano tem todo o direito de enquadrar num clichê o nosso bobo. Enquanto isso o deles reza baixinho numa reunião do AA: proteja-me do que eu quero. Não tem uma palavra que não seja ironia neste post, obrigada pela atenção.


Como diz o Odyr, quando chega um hate mail tudo o que se quer é que venha com erros de português. O meu veio pessoal e intransferível, misturando bah, mina e ratiada - o que, bem, é quase o mesmo que erros de português.


Não tem como dizer de forma polida: política é uma curra. Não foi sem dor que o Brasil estreitou relações comerciais com a China. No item 9 do documento, se lê:
'The Brazilian side reaffirmed its adherence to the principle of the 'one China policy' and to its recognition of the government of the People's Republic of China as the only legitimate government of that country, in line with the foreign policy pursued by Brazil over the last thirty years. In this context, Brazil also agree that Taiwan and Tibet are inseparable parts of China's territory and repudiate any unilateral action or incitement aimed at promoting separatist movements or tending to exacerbate tension in the Taiwan Straits and bring about 'Taiwan independence'. The Chinese side expressed appreciation of Brazil's position on this issue.'
Se eles apreciaram, não posso dizer o mesmo. Só para lembrar, em 'Brasil' enquadra-se você e eu.


Junho 07, 2004

As matérias de capa se sucedem e como nunca aconteceu antes os jornais ingleses tem a mesma versão dos fatos. Somos todos heróis nos sessenta anos do dia D - aquele em que os aliados expulsaram os alemães da Normandia. Tivesse tudo dado errado, 'eu seria hoje alemão', suspirou aliviado Comis, o francês. Mas só para lembrar a que tempo nós pertencemos a importância da presença de Schroeder ficou pequena diante da estrela de George Bush, aplaudido de pé mesmo depois da gafe: comparou aquela batalha com a sua, no Iraque, e assim lambuzou um pouco os beiços na geléia dos bravos. Como se toda guerra fosse libertação e todo ataque um revide. Como se fosse possível celebrar com iraquianos um novo dia D daqui a outros sessenta anos. Os tiranos mudam de lugar, apenas.


Junho 05, 2004

Voltei de Barcelona com Cavas e este template novo na bagagem. O belo presente foi obra do cavaleiro Jorge, que em breve vai ser meu colega numa redação internacional. E nem é por isso que ele é uma das pessoas mais queridas.


O computador morreu e ressuscitou ao terceiro dia, quando eu desacreditava e me via uma pessoa sem passado; como se o fogo tivesse queimado minhas fotos todas. Fiz uma última tentativa, assim só por tentar. Coloquei o Expedito do lado da máquina, acendi uma velinha e o computador foi indo, indo, indo e tudo como se nada tivesse acontecido. Se eu fosse um pouco menos cética, virava fiel.


Mas o pior não foi isso. O pior foi que o mesmo pau que deu no computador atacou este lar. Passamos um anti-vírus e reiniciamos, todos.


O último resquício talvez tenha sido uma dor de cabeça que eu desconhecia e que grudou na minha testa por dois dias sem folga nem pro banho nem pro sono. Um grama de paracetamol a cada duas horas, intercalado por aspirinas, me intoxicaram mas não resolveram. Claro, pensei que ia morrer - nem precisava tanto. Pablo me lembrou que podia ser uma cafaléia. Não disse assim, cefaléia, que esta palavra feia só quem conhece é mulher que lê bula de remédio para cólica, mas disse que podia ser só dor de cabeça. Não me ofendeu diminuir assim a minha dor mortal, tampouco me fez despreocupar. Eu só queria ter febre, algum indício de doença, mas nem isso. Só aquela dor na testa. Hoje de manhã abri os olhos devagar, fechei de novo, abri, me mexi, levantei, levitei. Sobrevivi.


Dor de cabeça faz você ter noção do quão barulhento é o mundo. Eu moro na parte mais barulhenta da cidade mais barulhenta do mundo. Ou foi só ontem aquele barulho todo.


Lembrei daquela novela da década passada em que o cara namorava a Maitê Proença ou aquela outra de olho azul e tinha uma doença no cérebro. Era quem? Francisco Cuoco ou Tarcísio Meira, acho que o último. Toda vez que ele começava a ter dor e se contorcer uma música aguda tocava bem alto. Tá na cara que a dor dele era por causa daquela música.


Esperei, esperei, e o inferno astral não veio. Foi uma transição de idade pacífica como não se via há 28 anos. Daqui pra frente tudo bem, meu medo é fazer 15 de novo.


'Everybody knows that our cities were built to be destroyed.'
(Caetano, quando morou aqui ao lado)


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