Outubro 04, 2004

Tem dias que as coisas parecem fazer sentido para todos menos um. Uma.


Bloody Mary feito em casa e o suco de tomate parece vencido pela data. Enumero as possibilidades de reação do corpo, contraponho com os prazeres do espírito, e bebo até a última gota.


Meu humor, quando é mal, é muito mau.


Quinze dias de trabalho sem parar para trás, outros quinze pela frente. No meio do caminho, onze da noite, vinho, tandrilax e o novo do Tom Waits. O disco é uma perfeição.
I'm made of bread and I'm on an
Ocean of wine
I hear all the birdies
On the phone just fine
Stop and get me on the ride up
Stop and get me on the ride up
Stop and get me on the ride up
I'm only goin
I'm only goin
I'm only goin to the top
Of the hill


Hate something, change something - dizia o adesivo. Se fosse ligado a alguma entidade religiosa, eu leria ali: Love something, change something. Em teoria. Na prática, Sharon mata com respaldo de Estado líderes religiosos e uns outros mais. Terroristas, eles - nem as crianças nos impressionam como as de Baslam.


Ramadan começa: um mês de jejum diário e orações noturnas, e a leitura do Corão que começa no dia um e termina no trinta. O conhecido muçulmano quase me agradeceu por perguntar e não fazer uma única piada.


Tem alguma coisa estranha, um clima, entre o mundo e eu. Me falta o instinto predador, me faltam desejos de consumo, uma ambição por status, até mesmo a noção de status. E a micropolítica me soa ridícula. Não aquela de bairro, de comunidade, mas aquela de cargo, de espaço no trabalho, de empurra daqui, mexe dali, dá um jeitinho e faz a conversa chegar onde você quer. Sou o terror da indústria do desejo, do ter e ser. A publicidade bate aqui e volta opaca pro mesmo lugar. E quando eu leio um outdoor que diz: 'Páre de ter que lembrar o tempo todo quem você é', seguido pela imagem de um carro, me mexo muito desconfortável. E nem sou hippie. Em troca do desenquadro, o mundo promete me engolir.


Quando o Pablo terminou de ler o trecho do livro que o Guardian publicou, me disse: Julian Baggini diz que sabe qual o sentido da vida. Qual você acha que é? 'É o will', respondi. E ele: isso, ele diz que é o futuro! Para o filósofo, o sentido da vida é o que vem depois, o que ainda não, o que falta. Mas quando eu disse will quis dizer livre arbítrio, desejo, o que te move. É quase, mas não é o mesmo. O will de futuro é o irrealizado; o de desejo é muitas vezes irrealizável. Dá para passar a vida discutindo o sentido dela. E posso ser convencida de quase tudo, menos que o sentido está quando termina. É bom e ruim demais para não ter um valor em si.



This page is powered by Blogger. Isn't yours?