Novembro 15, 2004

Do meu caminho para o trabalho, num dia faço épico no outro vou de drama. Ennio Morriconi e Belle and Sebastian a vida não imita.


Dos bobos da corte sou aquele de chapéu vermelho. Retomei a leitura de Rosa Luxemburgo para me lembrar onde tudo começou e esquecer como vai terminar.


A casa aqui é quente, a vela ilumina o cáctus e o santo, irmãmente. O disco e o vinho animam o ambiente. E fica fácil escrever sobre Falluja. Fica fácil escrever sobre Arafat. Fica fácil escrever. Fica fácil.


Para mim que achava que tinha sido roubo, ou engano, desaviso, desatenção certamente. Para mim que achava que se não tinha sido isso tudo tinha então remorso, arrependimento. Para mim as eleições americanas deram uma boa lição. E quando leio a análise dizendo que foi a moral, e não a guerra imoral, que deu vitória a Bush, penso que é tudo a mesma coisa. O moralismo é que permite seu antônimo.


Proteja-me do que eu quero.


Pode ser desinformação, certamente falta de estudo e também um pouco de falta de idade, mas Palestina sempre foi Arafat. E quando as manchetes voltarem para o Iraque, amanhã, enterra-se a causa com o homem. Se já não os vemos, nem existem.


Só retomando: invadimos o Iraque para liberar o povo de um ditador. Os oprimidos festejam nas ruas quando chegamos a Bagdá. A guerra termina, somos vitoriosos. Terroristas e insurgentes aqui e ali perturbam a nossa ordem mundial. São aliados de Saddam. São seguidores de Al Sadr. Não, não, são da turma de al-Zarqawi's e são muitos. Reelegemos nosso bom líder. Reinvadimos Bagdá, desta vez sem festejos. Morremos, matamos. E ainda podemos ser vitoriosos duas vezes numa mesma guerra.
(o uso do nós é por conta de ser complacente, não americana ou inglesa)


Compro sapatos novos e quase, quase, me iludo. Deslizo, tropeço, caio de cara com a manchete. Sou uma péssima burguesa.


Filho não dava, nem cães. Mas cáctus, sim. Errrei. Morreram três e agora este, o Cartola. Eu consigo ficar muito triste com a morte de plantas. Primeiro foi a Matilda, filha herdada, um ficus do meu tamanho. Depois Nina Simone, a planta que dormia, morreu antes da Nina Simone original. Então foi a gente ir para Barcelona que um cáctus virou um mofinho sobre a terra. Agora ele. Do lado, cátus Dona Zica fica só de novo.


Faço um furo no telhado e deixo a escuridão entrar no quarto. Tateio paredes, derrubo as telas, machuco os pés e faço o caminho de Judas. Não o que tu conheces, traidor. Outro Judas.



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