Dezembro 12, 2004

O 38 é uma das duas últimas linhas que utilizam ônibus velhos em Londres. Todo dia ando num deles, que trabalham em duplas. Ouvindo Pet Sounds vi o menino voar pelo corredor e então todo nós na mesma direção. Pulamos para o andar de baixo com a ajuda do moço prestativo, que a escada estava despedaçada, a cobradora gritava em surto, e o homem contava feridos que só existiam no 38 de trás, autor do acidente. Segui o trajeto pro trabalho a pé, sem dar pausa no cedê. E ontem o 38 morreu, descemos todos, resolvi ir caminhando de novo. Ouvia Flaming Lips e esperava o sinal para pedestre abrir enquanto o caminhão manobrava dúzia de vezes para dobrar numa esquina estreita. Antes da sinaleira virar verde, o estrondo maior do que o volume do walkman me apontou o contêiner do tamanho da minha casa no meio da rua, o caminhão lá na frente. Caiu no pé de ninguém. Mesmo dia, madrugada, ouvindo Belle and Sebastian, o taxi me carrega para casa e o casal de surdos-mudo briga na calçada com todas as letras gesticuladas. E hoje, sob o som de Elephant, do White Stripes, I just don't know what to do with myself, o garoto japonês corre e dá de cara com o poste. Não vou nem arriscar sair de casa com Radiohead.


O mundo merece tantos comentários da minha parte, que me contenho para preservar meus oito leitores de tanta ranzinzice. Mas que Emmanuel Goldstein, o inimigo do povo, é igualzinho a Bin Laden, não posso deixar de notar. Emmanuel é o grande mal de '1984', de Orwell. Com direito, ambos, a programas diários de dois minutos de ódio e tudo mais. Ao invés disso tornar o livro uma piada sem graça, nos torna.


Quase todo mundo quer a vida que eu pedi a deus (em minúscula, sic). Ainda bem que antes dele me dar já percebi que não me serve. Quanto mais entorta, mais descubro como ser feliz.



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