Junho 27, 2005

poucas palavras se definem tao bem quanto estereotipo. ontem no caminho pro parque cruzei pelo grande, gordo, tatuado e cheio de piercings e com o garoto loiro de sete anos e barriguinha aparecendo entre a camiseta curta e o calcao. foi o primeiro quem me sorriu e perguntou como eu estava. e o segundo tirou uma pistola nao sei de onde e atirou um jato de agua minha cara. estava calor, mesmo.

Junho 24, 2005

ouvindo the kills, oito horas da manha - faz sentido para quem acordou 'as cinco.


happy slapping e' uma destas brincadeiras da geracao que nasceu apertando botoes. comecou singela: um susto, uma foto, envia para uns amigos, que passam para outros, todo mundo achando graca, e o autor ganhava um certo status na escola. coisa que celular com camera, na mochila de toda crianca, permite. mas perdeu a inocencia quando a menina de uns sete anos ficou com o olho roxo. o happy slapping dela foi assim: ganhou um soco na cara de um, o outro tirou a foto. parou na policia. depois teve uma senhora sendo espancada e uma crianca sendo estuprada, mas ai, convenhamos, ja' era outra coisa: violencia registrada em foto ou video. dar susto nos outros faz parte de toda infancia, mas este tipo tem a mesma caracteristica dos blogs e fotologs. ja' nao faz sentido pensar isso, ou fazer aquilo. a gente quer que os outros saibam. como eu fui apertar botoes bem mais tarde, parei no blog - sem imagens ou comments.


somos quase 6.5 bilhoes de pessoas neste planeta e ainda assim conseguimos sentir solidao. deve ser festejada, pois. que privilegio.

Junho 20, 2005

guloso, ele. hoje blair e' presidente do G8 e da UE. dois pepinos. o primeiro: brown vem ha meses fazendo lobby em prol da anistia das dividas de paises africanos, e nosso lider (sic) concorda plenamente. foi facil: a vitoria esta' garantida. o outro grande assunto que ele quer direcionar para que seja discutido na escocia e' o clima, e ai' que mora o perigo: ja' vazaram documentos americanos que mostram que bush nao aceita que alteracoes climaticas sejam resposta a acoes humanas nem mostra simpatia com o protocolo de kyoto. ele tem esta ideia que se voce atropelar e depois fizer respiracao boca-a-boca, ainda sai como heroi do acidente. nao e' necessario dizer, mas digo, que o protocolo, sem a adesao do maior poluente mundial, serve para pouco e deixa os outros com aquela aspera sensacao de desvantagem: enquanto voce corta emissao, gasta, altera a rotina das producoes, seu concorrente economico segue sem amarras, cada vez mais forte. (sabemos que o dia vai chegar que essa verdade vai ser mentira, nao ainda.) no segundo pepino, blair assume a lideranca de um bloco esfarelado, se tal coisa existe. e claro que alem de problemas insoluveis pontuais, estes confrontos nao ajudam em nada na reconstrucao de um lider (sic). blair nunca esteve em tao maus lencois. e tem quem pense que bush nao esta' sendo generoso nas retribuicoes ao apoio recebido.


o cientista david king e' o homem encarregado de persuadir os lideres poderosos de paises idem a assinar um acordo que assuma que o aquecimento global e' um problema real e que requer acao urgente. wish him luck.


maome vai 'a montanha. edinburgo, ao vivo, a cores, e diariamente, neste blog que vos fala.

Junho 18, 2005

numa conferecia ha uns dez anos, em porto alegre, edgar morin disse que a europa existia tanto quanto a ideia de america latina, ou seja: nao existia. ele contava que usar o termo europeu para um frances seria o mesmo que chamar um brasileiro de americano. pois pelo visto a europa continua a nao existir, neste sentido. tem, claro, relacoes comerciais, e pelo visto mesmo elas insatisfatorias. mas na conferencia de bruxelas o que fica mais evidente e' que a europa tem mais do que um problema de semantica: vive uma crise de obediencia. sao muitos homens com muito poder numa mesma sala, dificil entender quem e' que manda. eles se autodenominam um grau de poder, de acordo com a importancia que julgam ter o pais que representam e a participacao na formacao do bloco. o problema e' quando mais de um se posiciona no mesmo nivel, como o que esta acontecendo. nao cabe, fica um empurra-empurra. o encontro virou uma birra entre blair e chirac. voce nao fala sobre subsidios e eu nao falo sobre o rebate, ate porque na verdade eu queria que voce falasse sobre o que vai fazer com o resultado do referendo mas voce se recusa a tocar no assunto. o show de caras e bocas dos dois esta' espetacular, poucas vezes a politica foi tao teatral. a europa nunca mais sera' a mesma depois disso - ou, se morin estava certo, continua tudo igual.


sobre pombos. minha antipatia por estes passaros extravasa a razao, mas tem fundamento sociologico. nao e' porque sao sujos, comem ossos de galinha no lixo, e tem as patas deformadas, isso e' tudo culpa das cidades, para nao dizer nossa. o problema e' o comportamento, os machos com aquele peito estufado de orgulho, sempre circulando, bicando e mandando nas femeas submissas. e detesto tanto machos de peito estufado quanto femeas submissas, de qualquer raca e religiao. em paris eu vi um estupro de uma pomba por um pombo, em plena praca publica. claro que ninguem fez nada. e ontem, nao ajudou em nada na reputacao o pombo ter feito suas necessidades bem no vidro da minha janela.


passagem no tempo. eu fui carregada do barzinho ok para aquele lugar podre recorrente pela amiga, que queria encontrar o cara de anteontem que seria seu namorado pelos proximos quatro anos. mas ela nao podia ir so', e isso significava que eu tinha que ir tambem. fui, claro, as coisas que nao se faz por uma amiga. entao o cara de anteontem ficou me contando que tinha ido para madrid com o irmao, na mesma epoca que eu, e entao o irmao chegou e virou o meu cara de anteontem, ontem e amanha. sempre. isso aconteceu ha' oito anos, bar joao, que nao existe mais e tinha uma colecao de cachacas que inluia de tijolo, cobra de borracha e teletubbies, mas as preferidas eram as de catuaba e abacaxi. ali eu entendi que muitas coisas que nao faziam sentido algum, faziam algum. e descobri, primeiro, que a perfeicao existe. e depois, que o que nao e' perfeito, perfeito esta'. a vida ficou muito melhor do lado dele, e ficara'.


alguem realmente se preocupa com michael jackson? ate' o moacir scliar anda escrevendo sobre isso, em pleno mes de roberto jefferson. cruzes.

Junho 15, 2005

alem de ser um homem bonito (e isso e' uma provocacao, porque toda vez que se escreve sobre mulheres bonitas e inteligentes se comeca assim, como se fosse uma contradicao), alem de ser bonito cassavettes e' um diretor e ator muito muito talentoso, ate' a testa dele e' super expressiva. 'love streams' (em portugues, 'assim falou o amor', puts) e' um dos melhores filmes que ja' vi. gena rowlands e' irma do cassavetes (no filme, porque na vida real foi esposa dele), vivem os dois em mundo paralelos ao nosso, diferentes entre si. no meio, encontram um ao outro, e seguem perdidos. mas o amor e' uma corrente continua, que nao salva nem destroi, como nao podemos salva-lo nem destrui-lo. ele apenas persiste. shadows e' outro filme dele, e outra maravilha. the killing of a chinese bookie, mais um. sao doze no total, eu chego la'.


a tate modern e' um dos melhores lugares do mundo. atravesso o thames e toda aquela paisagem antes de chegar e mesmo assim entro sem culpa naquela usina reformada. foi la' que vi bruce nauman, sigmar polke, eva hesse, luc tuylmans, joseph beuys, edward hopper, paul mccarthy, louise bourgeois... enfim, metade das coisas que amo e que me impressionaram e que me deixaram mais feliz de pertencer a este mundo. na bienal de sao paulo de 1998, vi outras delas. a casa e' o corpo e' uma obra da lygia clark perfeita. la' me dei ao luxo de vestir seus macacoes e mascaras, e vi pela primeira vez obras do oiticica ao vivo. por isso que sexta foi um dia especial, revi na tate este dois artistas brasileiros que amo. na exposicao open systems: rethinking art c.1970, sao eles as estrelas. ela, lygia, estava mau representada. ate' pq o seus oculos para ver melhor, um par de oculos presos frente a frente e com uma lente de aumento no meio, quebrou. fiquei meio decepcionada, gosto destes micos. mas oiticica, que espetaculo. seu projeto filtro so' nao e' a melhor obra da mostra porque outra dele, algo como sofro calado, ganha. de presente ainda tem cildo meirelles, de quem eu so' conhecia o desvio para o vermelho, com a obra inserções em circuitos ideológicos: projeto coca-cola e projeto cédula. do ultimo, me lembro de notas caindo na minha mao com o carimbo: quem matou herzog? e me lembro de perguntar aos meus pais o que era aquilo. no projeto coca-cola, ele imprimia como fazer um molotov, bem discreto, e recolocava no mercado. isso naquele outro tempo, das garrafas retornaveis e dos artistas politizados. andy warhol ficou pequeno, gastamos dois segundos com seus mao-tse-tungs. ainda fomos ver frida kahlo na sequencia, mesmo andar do lado oposto. ao contrario da primeira, estava lotada. e nao impressionou.


ela conta que sonhou comigo: 'no sonho dessa noite estavas com uma cicatriz em X nas costas, como se o sol tivesse te queimado muito. mas já se podia tocar, e vc não falava muito, ainda'. eu tambem sonhei comigo. no meu, tinha um passaro de asas grandes do lado de dentro do meu apartamento. como as moscas, quando vem, ele demorava para encontrar a saida, e batia varias vezes no vidro antes. numa destas tentativas frustradas, joguei um pano sobre ele. ficou quietinho. peguei com cuidado e coloquei minhas maos para fora da fresta, mostrando a saida. quando solto o pano, era uma mosca.


quem tiver tempo, vela e santo, acende uma que vou precisar, na segunda.

Junho 11, 2005

os ultimos filmes foram como ver novela, e eu nao vejo novela. entao a caixa emprestada com todas as parcerias de herzog e kinski foi um presente. o documentario my best fiend (assim mesmo: n. 1. an evil spirit; a cruel or mischievous person. 2. informal a devotee or addict), feito em 1999 pelo herzog, da' pistas do que esperar: uma combinacao explosiva de talentos kamikazes, de um lado e de outro da camera. duas personalidades fortes, brilhantes e egocentricas, que na base de tapas multiplos produzem filmes onde cada um dos tapas aparece na atuacao, no enredo, e acabam na cara do espectador. herzog chama seus fios brancos de cabelo carinhosamente de kinskis. ali tem imagens em off dos cinco filmes da dupla, com direito a surtos, ameacas de abandono e morte, carinho, admiracao, respeito e falta de. eles se enfiaram em barcos, correntezas, florestas, e construiram uma obra que todo o dinheiro da industria de hoje nao consegue comprar, que dira' produzir. o documento termina com kinski sorrindo, placido, perseguido por uma borboleta. ela vai do dedo para a orelha, depois descansa no nariz, pousa no cabelo louro, no ombro, flutua no ar que sai da boca, uma imagem doce que resume adoracoes impossiveis e fugazes, e por isso mesmo fortes e belas. a pieguice e' culpa minha.


enquanto isso, os filmes autorais de hoje nao vao mais longe do que os vinhedos da california. esta frase serve so' para conseguir dizer no mesmo post que sideways e' uma das piores aclamadas producoes do ano, mas nao a unica.


vou ali na tate ver lygia clark e oiticica, seguindo a sessao `antes que era bom`.

Junho 10, 2005

nao acredito em atalhos. tem que gastar com a solucao o mesmo tempo que se levou para criar o problema.


a melhor banda, hoje, e' interpol.
Slow Hands

Yeah but nobody searches
Nobody cares somehow
When the loving that you've wasted
Comes raining from a hapless cloud
I myself may look upon your face
Disappear in the sweet, sweet gaze
See the living that surrounds me
Dissipate in a violent waste

Can't you see what you've done to my heart
And soul...
This is a wasteland now

We spies, we slow hands
Put the weights all around yourself
We spies, oh yeah, we slow hands
You put the weights all around yourself

I submit my incentive is romance
I watched the pole dance of the stars
We rejoice cause the hurting is so painless
From the distance of passing cars

But I am married to your charms and grace
Just be crazy like the good old days
You make me wanna pick up a guitar
And celebrate the myriad ways that I love you

Can't you see what you've done to my heart
And soul...
This is a wasteland now

We spies, yeah, we slow hands
You put the weights all around yourself
We spies, oh yeah, we slow hands
Killer for hire, you know that yourself

We spies, we slow hands
Put the weights all around yourself
We spies, oh yeah, we slow hands
We retire like nobody else

Junho 06, 2005

Fazia tempo que eu nao voltava sozinha para casa, depois de uma festa. Quase oito anos, exagerando porque teve aqui e ali. Ontem foi engracado. Primeiro ela passou para la', depois para ca', e quando ia para la' de novo, parou na minha frente, com as maos na cintura, e perguntou como se falasse espanhol: do you want to come to my house? No, thanks, I wanna go to my house. Ok, ela disse, se deu facil por vencida. Trinta e oito segundos depois chega o onibus, mostro orgulhosa meu passe emprestado pro motorista. Enquanto isso, alguem toca meu cotovelo. Nao olho quem, afinal e' o cotovelo. Subo, na expectativa de evitar os mais bebados, que nao vao se dar ao trabalho da escada. Com 99.5% dos assentos vazios, o garoto que tinha acabado de me fazer carinho senta exatamente do meu lado. Comeca a conversar, digo que nao tenho humor. Ele insiste, tem uma banda e acaba de assinar com uma gravadora. I don't give a shit, falo, educadamente. Entao me esnoba: minha ultima chance de falar com ele, daqui pra frente vai ser famoso, muito famoso. Por sorte, estava quase em casa.

Junho 05, 2005

o banho levou pelo ralo, ate' o thames, tudo o que me incomodava ontem. foi como um cometa, daqueles que desce primeiro.

Junho 04, 2005

o telefone tocou e eu disse que nao tinha ninguem com este nome aqui. tem sim, retrucou o outro antes de desligar. no dia seguinte eu disse de novo que nao tinha ninguem com este nome aqui, e a respiracao do outro lado ficou esperando, paciente. tem sim, lembrei, e chamei pelo nome. demorou uns minutos a conversa mas nunca perguntei quem era. nao aquele, do outro lado da linha, mas este.


o problema com a liberdade e' que se voce usar muito ela acaba.


ontem eu fiz oitenta anos. uma semana depois dos trinta. foi rapido, isso.


tem o silencio, que eu preencho com musica. quanto mais aumento o volume, maior fica.


despencou, o barraco. caiu do meu lado. e nao escapei ilesa.


ouco a mulher todos os sabados. faca chuva ou sol, e e' geralmente chuva, ela vem ate o meu bairro e grita o que pensa. no principio, era contra a guerra. depois, pelo fim dela. mais um pouco, exigia a volta das tropas e a desocupacao. hoje, ela e' contra a constituicao europeia. e' bom que nunca falta assunto.

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