Outubro 25, 2005

andemo a ombra, no veneto, significa vamos para um bar. ombra - sombra - e' vinho, servido em copos e nao calices, no balcao. e giro a ombra e' o equivalente a pub crawl e foi o que fizemos no nosso segundo dia, depois de horas e quilometros de bienal de veneza. entre as enotecas pelas quais passamos, dificil dizer qual a mais perfeita. talvez o melhor seja o conceito: uma vida mais mansa entre paredes descascadas, ruelas sem saida e sem nome, pernas e barcos como locomocao. aceitamos o fato de que estavamos sempre perdidos, forcamos nosso italiano ao extremo, nao tropecamos em nenhuma ponte, comemos alcachofras de todas as formas possiveis numa profusao de cichetis - tapas - que nao evitam mas amenizam o porre, e acordamos sem dor de cabeca, prontos pra comecar tudo de novo. pena que os amigos que fizemos tiveram que ir embora logo. explicaram, do alto de seus 80 anos: as esposas ficariam bravas se chegassem mais tarde do que aquilo.


bom tambem reconhecer naquelas feicoes da pessoas as minhas, e lembrar que pertecimento e' algo que eu carrego na bolsa como um quebra-cabecas. ando por ai, encaixando pecas por lugares. nao vai ter como emoldurar a figura completa no final, mas um dia as pecas devem acabar.


chegar em londres e pegar o 38 - o ultimo routemaster da historia inglesa, que dura apenas ate' o dia 28 desta semana e que nos embala para la' e para ca' nesta cidade - apenas reforcou o vaporetti-leg. trabalhar no dia seguinte so' nao foi um horror porque a aventura continua sempre, com mais um irmao trazendo o sorriso para ca'.


o tradicional routemaster - o onibus vermelho arredondado, com uma unica porta na traseira - num ultimo suspiro, carrega consigo para o tumulo uma exposicao de fotos do leste de londres, onde moramos e por onde ele circula, e onde no futuro as olimpiadas e a especulacao imobiliaria vao morar. sao tempos de coisas quase extintas, pois.

Outubro 19, 2005

em troca do love mail que recebi, e de outro super querido, ambos de conhecidas desconhecidas, prossigo, em nome da polemica.


sobre o plebiscito, entendo o sim, e nao vejo o que um cidadao do bem pretende com uma arma na mao. fica parecendo com os outros, os cidadaos do mal. depois que toda esta perda de tempo passar, a gente pode continuar em paz discutindo como a corrupcao esta' por toda parte, esquecendo das drogas da festa de ontem, do dia em que pagamos um policial para nao levar uma multa, dos impostos que sonegamos, de como diminuimos a velocidade somente onde tem pardal, dos trabalhos feelancers que fizemos e nunca declaramos, disso e daquilo. nao fique irritado, estou me incluindo no saco. quando tudo isso passar nao vai ter nem os do nao nem os do sim apontando os dedos pras feridas alheias, e a gente pode seguir em paz neste pais que nao tem solucao, e se nao tem solucao nao vamos comecar a limpeza por nos mesmos. enquanto a gente espera que os outros sejam punidos primeiro, mudem primeiro, seguimos. ninguem disse que nao estamos dispostos a transformacoes, vai indo que nao vou.


antes que me digam, digo eu: e' claro que eu nao tenho que palpitar. nem posso, apenas brasileiros residentes no brasil votam, exceto para presidente. e' justo. e demorei bastante tempo, hesitei antes de publicar isso. fiquei lendo uns e outros, e em alguns textos as brasas estao tao bem puxadas para os lados que ate' da' para voce ter quase certeza do que e' certo. mas depois que os numeros sao esquecidos, e a forca das palavras se atenua, so' tem uma coisa que faz sentido: a ausencia de armas. aqui em londres temos todos os loucos e os atritos e os momentos de raiva, mas e' um luxo saber que na pior das hipoteses tem o soco. se tem que comecar um dia, que seja antes do fim.


ha' 4 anos eu andava de carro. ha' tres anos eu andava de metro. ha' dois anos eu andava de onibus. ando de bicicleta.

This page is powered by Blogger. Isn't yours?